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3 espetáculos históricos da MPB dirigidos por Augusto Boal

Também ensaísta e diretor teatral, o carioca Augusto Boal foi um dos dramaturgos que mais contribuiu para a criação de um teatro genuinamente brasileiro e latino americano.

Nascido no subúrbio da Penha, no Rio de Janeiro, desde os nove anos ele já dirigia peças familiares, com seus três irmãos. Aos 18 anos foi estudar Engenharia Química na antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, e – em paralelo – já escrevia textos teatrais. 

A importância de Augusto Boal para o teatro nacional

Na década de 1950, enquanto realizava estudos em nível de Ph.D em Engenharia Química, na Columbia University, em Nova York, estudou dramaturgia na School of Dramatic Arts, com John Gassner, professor dos famosos dramaturgos estadunidenses Tennessee Williams e Arthur Miller. Na mesma época, também assistia às montagens do Actors Studio.

Em 1956, Boal passou a integrar o Teatro de Arena de São Paulo, que tornou-se uma das mais importantes companhias de teatro brasileiras, até o seu fechamento, no fim da década de 1960.

Sua primeira direção foi a peça “Ratos e Homens”, de John Steinbeck – que lhe valeu o prêmio de revelação de direção da Associação Paulista de Críticos de Artes, em 1956 – e seu primeiro texto encenado foi “Marido Magro, Mulher Chata”, uma comédia de costumes. 

Depois de uma série de insucessos comerciais e diante da perspectiva de fechamento do Arena, a companhia decidiu investir em textos de autores brasileiros. Foi assim que o grupo ressurgiu, provocando uma verdadeira revolução na cena brasileira, abrindo caminho para uma dramaturgia nacional.

Augusto Boal em ação | Imagem: Reprodução

Para prosseguir na investigação de um teatro voltado para a realidade do Brasil, Augusto Boal sugeriu a criação de um Seminário de Dramaturgia que se tornou o cenário de vários novos dramaturgos. 

Na década de 70, passou a difundir a técnica do Teatro do Oprimido – que o tornou mundialmente conhecido –  um método ou técnica teatral para a preparação do ator que reúne exercícios e jogos e que tem como principal objetivo democratização dos meios de produção teatral, o acesso das camadas sociais menos favorecidas e a transformação da realidade por meio do diálogo (tal como Paulo Freire pensou a educação) e do teatro. 

Ele mesmo assume influências de Paulo Freire, além de Brecht, Shakespeare e Molière, Boal, usando o teatro como meio de conscientizar e também denunciar o sistema de opressão e censura.

As técnicas de Boal ganharam mundo, sendo suas obras traduzidas em mais de 20 idiomas, e ganhando aplicação por parte de populações oprimidas nas mais diversas comunidades.

Sua preocupação sempre foi a de criar uma linguagem que pudesse traduzir a realidade do seu país, uma maneira brasileira de falar, sentir e pensar, tendo o teatro como resposta às questões sociais e como meio de analisar conflitos e apresentar alternativas. 

Augusto Boal dirigiu e participou da dramaturgia de três dos mais importantes espetáculos musicais teatrais de protesto da história da música popular brasileira. Vamos conhecer cada um deles?

1 –  Opinião

Zé Keti e Maria Bethânia em cena no show “Opinião” | Imagem: Divulgação

Em 1965, logo após o Golpe Militar de 1964, Augusto Boal dirigiu no Rio de Janeiro o show “Opinião”, espetáculo musical produzido pelo Teatro de Arena.

A resistência contra o governo militar se organizava na cidade e um dos espaços de efervescência político-cultural era o restaurante Zicartola, mantido por Cartola e sua mulher, Dona Zica. O local era o ponto de encontro de sambistas de destaque, dentre eles Zé Keti, João do Vale e a cantora Nara Leão.

Ao mesmo tempo, a iniciativa para o texto surgiu de um grupo de autores que pretendia criar um foco de resistência política por meio da arte: Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa – ligados ao Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE

O elenco do espetáculo era estrelado então por Nara Leão, João do Vale e Zé Keti. Mas, logo no início, a cantorateve um problema nas cordas vocais e teve que ser substituída pela joveme ainda iniciante Maria Bethânia, indicada pela própria Nara. 

Com apenas 19 anos, aquele foi o estopim para o sucesso absoluto de Maria Bethânia, consagrando-a como uma das maiores vozes do Brasil até os dias atuais.

O show-manifesto trazia os atores-cantores intercalando canções a narrações referentes à problemática social do país e tornou-se uma referência na chamada “música de protesto”, sendo considerado um dos mais importantes espetáculos da história da música popular brasileira. 

Montado a partir de uma colagem de fontes diversas: músicas, notícias de jornal, citações de livros, cenas esquemáticas e depoimentos pessoais – o registro do show deu origem ao álbum homônimo, lançado em 1965.

2 – Arena Conta Zumbi

Cena do espetáculo “Arena Conta Zumbi” | Imagem: Reprodução

A partir de “Opinião”, Augusto Boal iniciou o ciclo de musicais no Teatro Arena, e – ao lado de Gianfrancesco Guarnieri (com quem divide a autoria)e com música de Edu Lobo – dirige o espetáculo “Arena Conta Zumbi”, também de 1965, primeiro experimento com o sistema curinga: onde oito atores se revezam, fazendo todas as personagens.

O show trazia uma reflexão sobre as mudanças ocorridas no país após o Golpe, colocando em cena a luta dos quilombolas de Palmares e sua resistência. Os autores utilizaram como material de dramaturgia os livros “Ganga Zumba” (de João Felício dos Santos) e “O Quilombo dos Palmares” (de Edison Carneiro). 

Com o aumento da repressão política, após a assinatura do Ato Institucional nº 5, em de 1968, o grupo aceitou o convite de excursionar pelos Estados Unidos, México, Perú e Argentina, reapresentando “Arena Conta Zumbi”, iniciando a turnê em 1969.

3 – Arena Canta Bahia

Elenco de “Arena canta Bahia”, com o diretor Augusto Boal. Em cima: Gilberto Gil, Jards Macalé, Caetano Veloso e Roberto Molim. Em baixo: Tom Zé, Maria Bethânia, Boal, Gal Costa e Piti. | Foto: Derly Marques / Acervo Augusto Boal

O sucesso de público do espetáculo anterior abriu caminho para outro show com dramaturgia e direção de Augusto Boal, em setembro do mesmo ano:“Arena Conta Bahia”, que conta com a direção musical de Gilberto Gil e Caetano Veloso, e – além deles – Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé no elenco, todos baianos.

O espetáculo tratava de temas como a seca e a pobreza e também contava com as guitarras de Jards Macalé.

“As canções de ‘Arena Canta Bahia’ foram escolhidas pelas letras, para contar uma história de retirantes. Não era seleção das mais belas músicas baianas: eu queria mostrar famílias que sofriam seca e buscavam miragens de esperanças. Gente com medo de sonhar colorido: sonhava preto e branco. Sonhavam gotas de orvalho, sem coragem de sonhar oceanos. Caetanonão se conformava: inconcebível espetáculo cujo título continha a palavra mágica, Bahia, Caymmi estando ausente. Sempre gostei de Caymmi(…) Não se tratava, porém, de gostar ou não, mas de escolher músicas que condenassem a ditadura, cada vez mais desumana.” 

BOAL, A. Hamlet e o filho do padeiro. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 233.

Mais sobre Boal

Chico Buarque escreveu uma carta musicada que ele fez em homenagem a Augusto Boal, que vivia no exílio em Lisboa, quando o Brasil estava sob a ditadura militar: a canção “Meu Caro Amigo” foi gravada originalmente no disco “Meus Caros Amigos”, de 1976. 

Outro grande clássico de Chico Buarque, “Mulheres de Atenas”, de 1976, é uma parceria com Boal.

Augusto Boal foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em 2008, em virtude de seu trabalho com o Teatro do Oprimido e, em março de 2009, foi nomeado pela Unesco Embaixador Mundial do Teatro.

Se não tivesse nos deixado em maio de 2009  – aos 78 anos de idade – completaria 95 anos nesta semana.

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