O aniversário é dele, mas a gente ganha de presente a história de um dos maiores sucessos da carreira de Samuel Rosa: a canção “Dois Rios”!
O cantor, compositor e instrumentista mineiro – que foi por mais de 30 anos vocalista de uma das maiores bandas da história da música brasileira, o Skank – completa mais um ano de vida neste 15 de julho e a gente relembra as razões que fazem de “Dois Rios” uma das suas músicas mais importantes.
A história da música “Dois Rios”
Composta em conjunto com dois grandes parceiros de Samuel – Nando ReiseLô Borges – “Dois Rios” foi lançada no álbum “Cosmotron”, do Skank, em 2003.
Nando e Samuel tornaram-se parceiros lá em 1996, quando uma paixão dos dois resultou em uma bela amizade e uma parceria de composição produtiva: o futebol. Os dois compuseram juntos pela primeira vez a canção “É Uma Partida de Futebol”, para o álbum “O Samba Poconé”, do Skank.
Em seguida, em 2000, outra composição dos dois entrou para o álbum “Maquinarama”, de 2000: “Ali“. Ou seja, Nando Reis tinha trabalhado em praticamente todos os álbuns da banda desde que eles se conheceram. “Dois Rios” era já seria a quarta composição da dupla.

Já de Lô Borges, Samuel vinha se aproximando bastante nos últimos tempos. Ele era seu conterrâneo mineiro e também um dos fundadores de um movimento que influenciou muito o eterno vocalista do Skank: o Clube da Esquina.
Portanto, Lô passou de ídolo a amigo e parceiro de Samuel. Em 2000, eles tinham composto juntos (e também com Rodrigo F. Leão) a canção “A Última Guerra”, que também entrou para o álbum ”Maquinarama”.
E Lô Borges vinha frequentando muito a casa de Samuel Rosa naquele início dos anos 2000. Foi ali que Samuel lhe mostrou uma canção que vinha compondo. Ele achava que muito da inspiração que teve para criar essa música vinha da sua convivência com Lô Borges.
Naquela época – desde “Resposta” aliás – o Skank estava em um movimento de querer testar novas sonoridades, compor de forma diferente, depois de atingir o auge do sucesso com canções mais enérgicas e rítmicas, como “Garota Nacional” e a própria “É Uma Partida de Futebol”.
Era uma fase em que a banda queria explorar algo mais harmônico, com mais presença de cordas. E Samuel conta que percebeu que baladas compostas no violão faziam também muito sucesso:
“‘Dois Rios’ foi uma das músicas que eu poderia dizer que quase foi psicografada porque ela veio tão pronta! Muitas vezes a gente vai construindo trechos de uma música até ficar satisfeito. E ela veio de uma vez só, inteira.”, conta Samuel Rosa.
E continua: “Eu tenho muito orgulho de ter feito ‘Dois Rios’. É uma coisa que eu olho e falo: ‘Pô, modéstia à parte, eu estava inspirado quando eu fiz essa música aí’. Eu acho que não é uma bobagem solta ali no meio do caminho e tal. Ela é uma música que representa muito.
Até eu mesmo poderia duvidar que algum dia eu fosse compor algo assim, com esse teor. É legal que o público possa se surpreender com as nossas coisas e a gente mesmo possa surpreender. Eu digo que não é sempre que isso acontece, mas quando acontece, eu fico muito satisfeito.”.
Quando Samuel mostrou a música para Lô Borges, o músico também achou que ela estava pronta e linda. Mas, como Lô mesmo diz: “Eu tenho um pouco essa fama de mexer na música das pessoas e dar um caráter final, digamos”, e pensou que poderia dar um pitaco:
“Bom, o que está faltando? Acho que eu posso fazer alguma coisa que favoreça essa canção aí, que pode fazer uma ponte entre o A e o B. Eu crio um C.” (A, B e C se referem às partes da canção).
Foi então que Lô Borges colocou a terceira parte da música – o “C” – aquela parte que diz: “E o meu lugar é esse ao lado seu no corpo inteiro…”. Samuel acredita que Lô foi de uma habilidade incrível quando ele fez aquela parte: “Foi a cerejinha do bolo!”.

Bom, música pronta, eles precisavam de uma letra! E depois de tantas parcerias de sucesso, Samuel não podia pensar em outra pessoa que não em Nando Reis! Lô também era fã do trabalho de Nando como compositore foi então a ele que ficou incumbida a responsabilidade de escrever em palavras o tanto que aquela música já dizia.
Samuel Rosa também mostrou a música – já com a parte de Lô Borges inserida – para Nando em sua casa em Belo Horizonte, ao violão. Na hora, Nando Reis ficou encantado com a canção: “Essa é uma das boas. Ela é bem barroca. Tem uma ‘mineirice’. É óbvio que tem o Lô Borges, claro, genialmente! Isso é bom, isso exige capricho.”.
Nando conta ainda o que mais sentiu quando escutou a música pela primeira vez: “Quando eu ouvi, me deu a sensação de que ela não podia ser uma coisa muito óbvia, sabe? Assim, ela precisava ter algum grau de mistério ou de sinuosa.”.
Foi assim que o ex-Titãs escreveu uma letra que casou muito bem com a música. Que sugere várias interpretações existenciais, de amor, de fé, de encontros. Ele fez uma canção de amor que fala de duas pessoas, dois rios inteiros sem direção:
“‘Dois Rios’ tem algo onírico. Parte da ideia do dos dois rios, como se fosse a figura metaforicamente da boca e ao mesmo tempo dois caminhos, dois rios de duas pessoas. Então, esse encontro de dois rios foi a ideia, o ponto de partida que eu tive para resolver aquela encrenca.”, analisa o compositor.
“De qualquer maneira, tem esse jogo de opostos e de subversão das posições, onde aparentemente pólos não são antagônicos, eles são complementares e eles convivem inclusive juntos.”, conclui Nando.
“Dois Rios” foi um sucesso absoluto e acabou sendo indicada à “Canção do Ano” no Grammy Latino de 2004. Lô Borges conta que ficou tão feliz como se tivesse ganhado:
“A minha carreira depois de ‘Dois Rios’ deu uma ventilada assim com o pessoal mais do público do Skank também, que falou: ‘Pô, esse cara do Clube da Esquina também faz canção com o Samuel, com o Nando…’”.
Depois de “Dois Rios”, o trio ainda compôs mais duas canções juntos, para o álbum Horizonte Vertical, de Lô Borges, em 2011: a faixa título e “Nenhum Segredo”.
Com Nando, Samuel seguiu compondo canções de sucesso como: “Sutilmente” e “Ainda Gosto Dela”, ambas para o álbum “Estandarte”, do Skank, em 2008; “Como Somos”, para o álbum “Jardim Pomar”, de Nando, em 2016; e várias faixas do álbum “Velocia”, do Skank, em 2014.
Sobre Samuel Rosa
O artista mineiro foi – por mais de 30 anos – vocalista e principal compositor de uma das mais importantes e produtivas bandas da música popular brasileira de todos os tempos: o Skank.
Formada em Belo Horizonte, em 1991, a banda fez uma turnê de despedida que se encerrou em março de 2023, mas seus integrantes – inclusive Samuel – seguem com suas carreiras individualmente.
Com fortes influências do reggae, do pop rock, do ska, da Jovem Guarda e dos também mineiros do Clube da Esquina – o Skank influenciou e marcou para sempre a vida de toda uma geração.
Com seus parceiros Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo), e Haroldo Ferretti (bateria), Samuel Rosa lançou nove discos de estúdio, três ao vivo, uma coletânea e um disco comemorativo (gravado em 1991, em um estúdio caseiro, quando a banda se preparava para o seu primeiro show juntos).
Foram cerca de 40 hit singles indispensáveis para a história da música brasileira, 29 deles entre as 100 mais tocadas do ano no Brasil, 25 em trilhas de novela, e dois mega-hits que marcaram fases distintas e igualmente bem sucedidas do grupo (“Garota Nacional”, em 1996, e “Vou Deixar”, em 2004).
Entre tantas composições de sucesso de Samuel Rosa, podemos destacar outras canções além das já citadas, como:
- Jackie Tequila
- Esmola
- O Beijo e A Reza
- Pacato Cidadão
- Tão Seu
- Três Lados
- Acima do Sol (todas essas parcerias com Chico Amaral)
- Te Ver (de Samuel, Chico Amaral e Lelo Zaneti)
- Saideira (com Rodrigo F. Leão)
- Balada do Amor Inabalável (com Fausto Fawcett)
Agora em 2024, Samuel Rosa lançou o seu primeiro álbum em carreira solo, “Rosa“, e também uma nova gravação da canção “Vamos Fugir“, de Gilberto Gil, ao lado do baiano.



