Você sabia que um grande nome da nossa música popular brasileira, nascido nos anos 60, compôs uma canção para homenagear uma das pintoras mais importantes da história do Brasil: Tarsila do Amaral, nascida exatamente 80 anos antes dele?
Sim! Estamos falando do maranhense Zeca Baleiro, que compôs a canção “Tarsilinha”especialmente para um filme inspirado na obra da pintora: um encontro entre música e artes visuais que pulsa brasilidade!
Tarsilinha
Revisitar a arte de Tarsila do Amaral é recordar cores, formas e narrativas que definem parte do que fomos e seguimos sendo como nação criativa.
E nessa homenagem à modernista paulista, a música de Zeca Baleiro ocupa um lugar especial: ele compôs a canção tema do filme de animação “Tarsilinha”, de 2020, que conta a história da personagem título, uma menina de oito anos que embarca em uma jornada incrível para recuperar as memórias roubadas de sua mãe.
O longa de animação, dirigido por Célia Catunda e Kiko Mistrorigo – nasceu da inspiração das obras de Tarsila do Amaral e transporta para o cinema a fantasia de cores, personagens e paisagens que marcaram a produção da artista, em uma aventura cheia de encontros com personagens originários da cultura brasileira, como a Cuca e o Saci.
A trilha sonora do filme é assinada por Zezinho Mutarelli e Zeca Baleiro, que também interpreta a canção-tema ao lado da cantora Ná Ozzetti. A música foi composta especialmente para o longa e a sua letra acompanha o espírito da protagonista.
“A canção fala da travessia da personagem Tarsilinha por um mundo desconhecido, algo como uma realidade paralela, cheia de perigos e ameaças. Como em toda fábula, essa viagem é uma história de descoberta e autoconhecimento. A música é um baião bem brasileiro com uma pequena alusão à obra de Villa-Lobos.“, comentou Zeca Baleiro na época do lançamento do filme.
Sobre Tarsila do Amaral
Tarsila do Amaral nasceu em 1886, no interior de Capivari – São Paulo, em uma família de fazendeiros. Desde cedo, o convívio com as paisagens campestres e a vida rural iria marcar seu olhar artístico e sua relação sensível com o Brasil.
Foi aluna no Colégio Sion, em São Paulo, e mais tarde cursou estudos em Barcelona, na Espanha, onde pintou sua primeira obra – “Sagrado Coração de Jesus” – ainda em 1904.
De volta ao Brasil, Tarsila casou-se com André Teixeira Pinto, com quem teve sua única filha, Dulce. Após o término do casamento, dedicou-se aos estudos artísticos: começou na escultura e, em seguida, estudou desenho e pintura com Pedro Alexandrino, onde conheceu Anita Malfatti, outra pintora que é uma importante referência para o modernismo brasileiro.
Em 1920, Tarsila do Amaral partiu para Paris, onde frequentou a Académie Julian e estudou com Émile Renard: experiências que ampliaram seus horizontes estéticos. Recebeu notícias da Semana de Arte Moderna de 1922 por meio de cartas da amiga Anita, que a reconectaram ao movimento modernista em São Paulo.
Ao retornar ao Brasil, passou a conviver com o grupo modernista paulista, formando, ao lado de Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andradee Menotti Del Picchia, o célebre Grupo dos Cinco.
Tarsila voltou novamente a Paris em dezembro de 1922, dessa vez acompanhada de Oswald de Andrade. Na França, aprofundou seus estudos e teve contato com artistas e intelectuais referentes ao movimento vanguardista europeu.
Foi nesse período que começou a consolidar uma linguagem única: as cores vibrantes e formas simplificadas que combinavam a herança cubista europeia com elementos da cultura brasileira. A técnica e a originalidade de suas telas a tornariam uma das artistas centrais do modernismo nacional.
Em 1926, Tarsila realizou sua primeira exposição individual em Paris, um marco na sua carreira internacional, e se casou com Oswald de Andrade, com quem passou temporadas na fazenda da família, recebendo artistas e intelectuais modernistas.
Uma das fases mais marcantes de sua obra foi a chamada “Pau Brasil”, marcada por uma estética colorida e tropicalista, que valorizava o Brasil como tema. Em janeiro de 1928, como presente de aniversário para Oswald, pintou o icônico “Abaporu”, quadro que se tornaria símbolo da Antropofagia, movimento cultural que propunha a “digestão” da arte europeia para criar algo autenticamente brasileiro.
Os anos seguintes foram de transformações também pessoais e políticas: após se separar de Oswald, Tarsila viajou, participou de exposições, e em 1931 expôs em Moscou, onde se aproximou de temas sociais que refletiu em obras como “Operários” (1933), um marco da temática social na arte brasileira.
Durante boa parte de sua vida, Tarsila do Amaral transitou entre pintura, escrita e participação em Bienais, com presença destacada em eventos como a I Bienal de São Paulo (1951) e a VII Bienal de São Paulo.
Nos anos 1950, retomou aspectos da estética “Pau Brasil”, reafirmando seu compromisso com uma arte que ao mesmo tempo dialogava com seu tempo e celebrava o Brasil.
Tarsila do Amaral faleceu em 17 de janeiro de 1973, em São Paulo, deixando um legado imensurável para as artes plásticas brasileiras e uma obra que permanece, até hoje, grande referência do modernismo no Brasil.



