Você sabia que Tim Maia e Roberto Carlos integraram a mesma banda antes da fama? E que Roberto – já no auge – foi o primeiro a gravar uma composição de Tim – ainda desconhecido? Mas essa amizade nem sempre foi só flores!
Hoje, vamos conhecer os bastidores por trás de uma das amizades mais estelares da MPB: o Síndico Tim Maia e o Rei Roberto Carlos!
Tim Maia

Nascido Sebastião Rodrigues Maia, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, Tim teve uma infância bastante humilde. Morava em um cortiço e era o caçula de doze irmãos. Quando criança, vendia marmitas com a família e era conhecido como Tião Marmiteiro.
Aos 12 anos, ganhou de seu pai o seu primeiro violão e começou na música ainda adolescente, tocando bateria no grupo Tijucanos do Ritmo, formado na Igreja dos Capuchinhos – próxima da sua casa, na qual cantava desde os oito anos de idade e onde chegou a trabalhar como coroinha. Depois, logo assumiu o violão da banda.
Desde a infância, Tim já era muito amigo do também tijucano Erasmo Carlos – que nesta época ainda não usava Carlos como segundo nome, mas sim seu sobrenome: Esteves. Foi Tim quem ensinou para o Tremendão os primeiros acordes no violão.
E foi junto com o amigo, na juventude, que começou a frequentar o famoso Bar do Divino, na Tijuca, onde conheceu os também jovens talentos da música, entre eles: Roberto Carlos.
Roberto Carlos

Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, Roberto Carlos aprendeu a tocar piano e violão ainda criança, primeiro com sua mãe e depois no Conservatório Musical de sua cidade natal.
Foi incentivado pela mãe que Roberto Carlos cantou pela primeira vez em um programa infantil de rádio na sua cidade, do qual – depois – tornou-se atração assídua. Ele cantava boleros e também Bob Nelson, um grande ídolo da época, brasileiro que cantava música country em português.
Nos anos 50, Roberto mudou-se para o Rio de Janeiro e entrou em contato com o rock’n roll e o rockabilly. Foi nessa época que o Rei conheceu Tim Maia e também Erasmo Carlos, seu maior parceiro musical de toda a vida.
Roberto conta que aprendeu a batida do rock no violão ao ver Tim executar a canção “Long Tall Sally”, de Little Richard.
Os Sputniks e o desentendimento

Juntos, Tim Maia e Roberto Carlos formam sua primeira banda profissional: The Sputniks. Além deles, fizeram parte da formação: Arlênio Lívio, Edson Trindade, Wellington Oliveira e José Roberto “China”.
O grupo passou a se apresentar no famoso programa “Clube do Rock”, de Carlos Imperial, na TV Tupi.
Após uma dessas aparições no programa, Roberto Carlos fez um acordo com Imperial para uma aparição solo na semana seguinte. Tim Maia não gostou nem um pouco dessa história e após assistir a apresentação do colega, saiu do grupo e foi atrás de Imperial para apresentar-se também sozinho com o nome de Tim Maia.
O desentendimento entre os dois foi tão grande que ambos ficaram anos sem se falar, indo cada um para um lado.
Quando os Sputniks acabaram, Tim Maia foi passar um tempo nos Estados Unidos, seu grande sonho, para conhecer a música de lá. O ano era 1959 e Tim Maia tinha 17 anos.
Lá, ele teve o primeiro contato com a gravadora Motown e com os gêneros musicais que, depois, apresentaria ao Brasil inteiro em suas canções. Aprendeu ainda mais sobre a música negra e suas influências e ganhou uma bagagem musical imensa, principalmente na soul music.
Mas Tim também passou bastante perrengue e dificuldade nos Estados Unidos: sofreu com a discriminação racial e chegou a ser preso por pequenos furtos e porte de drogas, pois foi para o país sem um real no bolso.
Quatro anos depois de sua chegada, Tim Maia foi deportado de volta para o Brasil, trazendo na bagagem tudo o que devorou de música nos EUA.
Um país racista

Quando chegou no Brasil, Tim se deparou com seus amigos já fazendo muito sucesso na Jovem Guarda e nos programas de televisão da época. Roberto e Erasmo Carlos já eram os ídolos de uma geração: gravavam discos, lotavam shows, apresentavam programas e protagonizavam até filmes no cinema.
Acontece que apesar de seu imenso talento musical e da sua genialidade artística, Tim Maia – negro e pobre – demorou mais tempo que Roberto e Erasmo para estourar, mesmo tendo começado a carreira junto com eles. Além do racismo, Tim ainda sofria discriminação por ser um homem gordo.
Muitos diziam que ele era feio e não tinha o rótulo do que se considerava um “galã da Jovem Guarda”, como os outros. Mais uma vez ele, o preconceito – principalmente o racismo – fez com que o Brasil quase perdesse a chance de conhecer a maior voz da música brasileira de todos os tempos.
Aos poucos, Tim Maia começou a fazer alguns pequenos shows em São Paulo, participando de um programa de rádio de Wilson Simonal e tocando com Os Mutantes em um programa da TV Bandeirantes.
O reencontro: “Não Vou Ficar”
Em 1968, Tim Maia teve – finalmente – composições gravadas por Roberto e Erasmo Carlos, quando estavam no auge do sucesso. Erasmo gravou a canção “Não Quero Nem Saber”, no seu disco “Erasmo”; e Roberto gravou o imenso sucesso “Não Vou Ficar, para o álbum “Roberto Carlos”.
Foi essa a canção que começou a projetar Tim Maia para o Brasil inteiro.
A canção também entrou na trilha sonora do filme “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa”, lançado em 1970.
Sua carreira começou a se fortalecer e Tim Maia passou a ganhar projeção nacional a partir de 1969, quando também gravou um compacto simples com a sua canção “These Are the Songs”, regravada no ano seguinte junto com Elis Regina e incluída no álbum da cantora: “Em Pleno Verão”.
Mas foi em 1970, que Tim lançou o seu primeiro disco: indicado pelos Mutantes para a gravadora Polydor, o disco de estreia de Tim Maia, com título que leva o seu nome, já traz – de cara – imensos sucessos e clássicos da música popular brasileira, embalados pelas influências da soul e da funk music, e de tudo o que Tim absorveu das bandas da Motown.
O álbum abre com a maravilhosa mistura de soul e baião de “Coroné Antônio Bento” (de João do Vale e Luiz Wanderley), e também conta com os hits: “Eu Amo Você e Primavera (Vai Chuva)” (ambas de Cassiano e Silvio Rochael); e “Azul da Cor do Mar” (composta só por Tim). quando ele olhava um quadro na parede da sala da casa de um amigo que o abrigou quando ele estava numa pior e não tinha onde morar).
Com o sucesso de estreia, Tim tornou-se cada vez mais famoso no Brasil inteiro e passou a desfrutar de um prestígio sem igual dentro de sua gravadora, possibilitando a plena liberdade criativa para gravar nos três anos seguintes – também pela Polydor – os sucessores daquele disco: “Tim Maia” Volume II, III e IV.
Outros encontros
Depois de ambos conquistarem o sucesso no Brasil inteiro – e no mundo! – Tim Maia e Roberto Carlos voltaram a se encontrar mais algumas vezes em gravações:
- Tim Maia gravou a canção “Além do Horizonte”, de Roberto e Erasmo Carlos, em dueto com o Tremendão, no álbum “Erasmo Carlos Convida”, de 1980.
- Cantaram em dueto a icônica “Pede à Ela” (composição de Ed Wilson e Carlos Cola), no especial de fim de ano de Roberto Carlos na Globo, em 1985.



