Comuns em farmácias e no cotidiano das pessoas, os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco, são vistos por muitos como soluções rápidas para dores e inflamações. No entanto, o uso frequente e sem orientação médica desses medicamentos pode trazer consequências graves para a saúde dos rins — muitas vezes de forma silenciosa e irreversível.
“Os rins são silenciosos. Quando os sintomas aparecem, o dano já pode estar instalado”, alerta a nefrologista Carlucci Ventura, membro da International Society of Nephrology. Ela explica que esses fármacos agem bloqueando substâncias chamadas prostaglandinas, que, além de estarem envolvidas na dor e inflamação, ajudam a manter o fluxo sanguíneo renal. Quando inibidas, especialmente em pessoas com fatores de risco, o fluxo é reduzido e pode causar lesão renal aguda.
Um risco maior do que se imagina
Pessoas desidratadas, idosas, diabéticas, hipertensas ou com doença renal prévia estão entre os grupos mais vulneráveis. O uso prolongado ou repetitivo de anti-inflamatórios pode levar à formação de cicatrizes nos rins e à perda progressiva da função renal — sem sinais perceptíveis no início. Retenção de líquidos, toxicidade hepática e efeitos colaterais gástricos também são riscos conhecidos.
Uma revisão sistemática com mais de 1,7 milhão de pacientes revelou que o uso contínuo de AINEs aumenta em 24% o risco de desenvolver doença renal. Para pessoas que já têm comprometimento renal, esse risco sobe para 50%. Outro estudo, focado em pacientes com doença renal crônica, apontou que os AINEs podem piorar a pressão arterial, causar retenção de líquidos e agravar a insuficiência cardíaca.

Cuidados que preservam a saúde
A orientação médica é clara: evite automedicação com anti-inflamatórios, principalmente se o uso for recorrente. É fundamental avaliar o quadro clínico completo e pesar riscos e benefícios antes de iniciar esse tipo de tratamento.
Diante de dores ou inflamações, a recomendação é buscar alternativas mais seguras e seguir a prescrição de um profissional. “Cada caso exige análise individual. Prevenir é melhor do que tratar complicações que podem ser permanentes”, reforça a médica.
O recado é direto: medicamentos comuns podem trazer problemas incomuns. E no caso dos rins, qualquer descuido pode ter um preço alto — silencioso, progressivo e, em muitos casos, irreversível.



