A história oficial da literatura brasileira muitas vezes tentou colocar Lima Barreto em segundo plano. Negro, suburbano, crítico das instituições e da branquitude elitista que dominava as letras no início do século 20, o autor construiu uma obra marcada pela denúncia social, ironia amarga e humanismo.
Mais de um século depois, seus livros continuam a provocar reflexões incômodas e necessárias. Suas obras são, ao mesmo tempo, crônicas da exclusão e da resistência, e voltam a ganhar destaque tanto nas universidades quanto nas redes sociais.
Conheça 7 das maiores obras de Lima Barreto
1. Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)
O romance que virou símbolo da desilusão com o Brasil oficial

Neste que é considerado seu romance mais importante, Lima Barreto apresenta o major Policarpo Quaresma, patriota fanático que decide adotar o tupi como língua oficial e acredita que a regeneração do país virá pelo civismo. No entanto, é tragado pela burocracia, pelo militarismo e pela corrupção da Primeira República.
Características: sátira política, linguagem acessível, crítica ao nacionalismo cego.
Por que ler hoje: a obra expõe com precisão a ingenuidade do idealismo diante de estruturas injustas.
2. Clara dos Anjos (publicado postumamente em 1948)
Um dos primeiros romances brasileiros centrados em uma mulher negra

Clara, jovem pobre e negra, vive sob as limitações de classe e cor no subúrbio carioca. Ao se envolver com Cassi Jones, um malandro da elite, é seduzida e abandonada. Um enredo que revela o racismo estrutural e o machismo da época.
Características: narrativa sensível, protagonismo feminino negro, crítica à hipocrisia social.
Por que ler hoje: antecipa debates sobre interseccionalidade e violência simbólica.
3. Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909)
Um ataque direto ao racismo nas instituições e à imprensa brasileira

Baseado em sua própria trajetória, o livro é narrado por Isaías Caminha, jovem negro que enfrenta o preconceito racial ao tentar ascender socialmente como jornalista. A obra foi recusada por várias editoras e teve recepção crítica negativa na época, especialmente pela imprensa.
Características: autobiográfico, denúncia do racismo, crítica à meritocracia.
Por que ler hoje: evidencia como o racismo institucional bloqueia talentos e silencia vozes.
4. Os Bruzundangas (1922)
Um país fictício com os mesmos vícios do Brasil

Neste conjunto de crônicas e sátiras, Lima Barreto cria a fictícia Bruzundanga para escancarar os absurdos da política, da justiça e da cultura brasileira. Por meio da caricatura, revela a farsa das instituições.
Características: sátira alegórica, tom jornalístico, crítica institucional.
Por que ler hoje: continua atual na análise das elites políticas e da má gestão pública.
5. Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919)
A decadência intelectual de um Brasil que se dizia moderno

Neste romance breve e reflexivo, um narrador jovem se aproxima de um velho intelectual em declínio. A obra trata da passagem do tempo, do desencanto com a cultura oficial e da ilusão do progresso.
Características: melancolia, crítica à ciência positivista, introspecção.
Por que ler hoje: uma metáfora da crise da inteligência brasileira e da falsa modernidade.
6. Diário Íntimo (publicado postumamente em 1953)
As angústias, frustrações e dores de um escritor à margem

Escrito de forma fragmentária, o Diário Íntimo revela o sofrimento de Lima Barreto diante do racismo, da doença mental e da exclusão literária. Mostra um autor lúcido sobre si e seu tempo.
Características: confessional, político, existencial.
Por que ler hoje: desmistifica o gênio literário como figura heróica e mostra o humano por trás da obra.
7. Cemitério dos Vivos (publicado postumamente em 1956)
O retrato nu da loucura e da internação psiquiátrica

Escrito a partir da experiência de internação no Hospício Nacional dos Alienados, o livro é uma denúncia do tratamento desumano a que eram submetidos os considerados “loucos”. É também uma reflexão sobre os limites entre normalidade e desvio.
Características: testemunho, crítica à medicina institucional, prosa crua.
Por que ler hoje: contribui para debates atuais sobre saúde mental, racismo e exclusão.
Por que a obra de Lima Barreto ainda incomoda?
As obras de Lima Barreto escancaram o racismo, o classismo, o machismo e o autoritarismo com uma contundência que muitas vezes falta na literatura celebrada pelas elites. Por isso, ele é constantemente redescoberto por novas gerações de leitores, além de editoras e universidades que agora reconhecem seu valor literário e histórico.



