Hoje, 28 de março, é celebrado no Brasil o Dia Nacional de Lutas dos Estudantes, um dia de mobilização nacional por educação de qualidade e resistência estudantil.
A data – instituída por conta da morte de Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista assassinado pela ditadura militar neste dia, em 1968, durante um protesto no Rio de Janeiro – simboliza a resistência do movimento estudantil e a luta por melhorias na educação, democracia e soberania nacional.
Desde então, neste dia, estudantes de todo o país saem às ruas em manifestações, organizadas por entidades como a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e a UNE (União Nacional dos Estudantes).
Mas, você sabia que um dos maiores nomes da história da música popular brasileira compôs duas canções também para homenagear o estudante Edson Luís de Lima Souto e não deixar que sua história fosse esquecida jamais?
Sim, Milton Nascimento compôs “Menino” e “Coração de Estudante”, para falar sobre mais essa morte trágica e injusta promovida pelo regime militar. Vamos conhecer essa história?
O assassinato de Edson Luís de Lima Souto

O estudante paraense Edson Luís de Lima Souto tinha nascido em uma família pobre de Belém do Pará e mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o segundo grau no Instituto Cooperativo de Ensino, no centro do Rio de Janeiro, onde funcionava o restaurante Calabouço.
Em 28 de março de 1968, os estudantes do Rio de Janeiro estavam organizando uma passeata-relâmpago para protestar contra a alta do preço da comida no restaurante, que deveria acontecer no final da tarde do mesmo dia.
Por volta das 18 horas, a Polícia Militar chegou ao local e dispersou os estudantes que estavam na frente do complexo. Os estudantes se abrigaram dentro do restaurante e responderam à violência policial utilizando paus e pedras. Isso fez com que os policiais recuassem e a rua ficasse deserta.
Quando os policiais voltaram, tiros começaram a ser disparados do edifício da Legião Brasileira de Assistência, o que provocou pânico entre os estudantes, que fugiram. Os policiais supuseram que os estudantes iriam atacar a Embaixada dos Estados Unidos e invadiram o restaurante.
Durante a invasão, o comandante da tropa da PM, aspirante Aloísio Raposo, atirou e matou o secundarista Edson Luís – então com 18 anos – com um tiro à queima roupa no peito. Outras cinco pessoas ficaram feridas e outro estudante, Benedito Frazão Dutra, chegou a ser levado ao hospital, mas não resistiu.
Temendo que a PM sumisse com o corpo, os estudantes não permitiram que Edson Luís fosse levado para o Instituto Médico Legal (IML), mas o carregaram em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde foi velado. A autópsia foi feita no próprio local.
A palavra de ordem durante o enterro de Edson Luís era: “Mataram um estudante. Podia ser seu filho!”.
Depois, no período entre o velório do estudante até a sua missa na Igreja da Candelária – realizada em 2 de abril – foram mobilizados diversos protestos em todo o país.

Em São Paulo, quatro mil estudantes fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Também foram realizadas manifestações no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP (Largo São Francisco), na Escola Politécnica da USP (POLI-USP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).[6]
O Rio de Janeiro parou no dia do enterro. Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: “A Noite dos Generais”, “À Queima-Roupa” e “Coração de Luto”. Centenas de cartazes foram colados na Cinelândia com frases como “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão” e “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?”.
Após o término da missa de Edson Luís de Lima Souto, as pessoas que deixavam a igreja foram cercadas e atacadas pela cavalaria da Polícia Militar com golpes de sabre, uma espada militar de lâmina curva e um gume, historicamente usada pela cavalaria. Dezenas de pessoas ficaram feridas.
Outra missa seria realizada na noite do mesmo dia. O governo militar proibiu a realização dessa missa, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, insistiu em realizá-la, o que aconteceu com a participação de cerca de 600 pessoas.
Temendo que o mesmo massacre da manhã se repetisse, os padres pediram que ninguém saísse da igreja. Do lado de fora havia três fileiras de soldados a cavalo armados e – mais atrás – estava o Corpo de Fuzileiros Navais e vários agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
Num ato de coragem, os padres saíram na frente de mãos dadas, fazendo um “corredor” de proteção da porta da igreja até a Avenida Rio Branco, para que todos os que estavam na igreja pudessem sair com segurança. Apesar desse ato, a cavalaria aguardou que todos saíssem e os encurralaram nas ruas da Candelária. Novamente o saldo foi de dezenas de pessoas feridas.
O assassinato de Edson Luís gerou comoção nacional e culminou na chamada “Passeata dos Cem Mil”, em 26 de junho do mesmo ano, na cidade do Rio de Janeiro. Organizada pelo movimento estudantil, a passeata contou com a participação 100 mil pessoas, entre estudantes, artistas, intelectuais, políticos e outros setores da sociedade brasileira, tornando-a uma das maiores e mais expressivas manifestações populares da história republicana brasileira.
“Menino” e “Coração de Estudante”
Oito anos depois do assassinato de Edson Luís de Lima Souto, o cantor e compositor Milton Nascimento, no auge da sua carreira e já consagrado como um dos maiores nomes da nossa música, compôs – em parceria com o letrista Ronaldo Bastos – a canção “Menino” para homenagear o estudante.
“Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte
Talhada a ferro e fogo
Nas profundezas do corte
Que a bala riscou no peito
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora
Relógio no chão da praça
Batendo, avisando a hora
Que a raiva traçou no tempo
No incêndio repetindo
O brilho do teu cabelo
Quem grita vive contigo”
Lançada no seu álbum “Geraes”, de 1976, a canção também foi regravada com sucesso por Elis Regina nas apresentações e no disco “Saudade do Brasil”, em 1980, quando o Brasil vivia ainda os últimos duros e violentos anos de regime militar.
Pouco tempo depois, Milton voltou a compor outra canção em homenagem a Edson Luís.
Com música composta pelo arranjador, pianista e compositor Wagner Tiso inicialmente sob o nome de “Tema de Jango” para um documentário sobre João Goulart – presidente deposto pelo golpe militar de 1964 – a canção ganhou letra de Milton Nascimento lembrando a tragédia de Edson Luís e a canção foi rebatizada como “Coração de Estudante”, egravada no álbum “Milton Nascimento Ao Vivo”, em 1983.
Mais esperançosa que “Menino“, rapidamente “Coração de Estudante” se tornou um hino não-oficial do movimento pró-democracia Diretas Já, sendo considerada uma das obras mais emblemáticas da música brasileira na fase final da Ditadura Militar, que teve seu fim decretado em 15 de março de 1985.
Após assistir a algumas cenas na estreia do documentário dirigido por Silvio Tendler – que só foi lançado mesmo em 1984 – Milton se emocionou com o tema composto por Wagner Tiso e, em um momento raro de sua carreira onde não costumava ser o letrista, decidiu adicionar versos à melodia.
A letra é cheia de metáforas de esperança e denúncia e foi inspirada na luta e nas mortes de estudantes durante o regime militar, com menção específica a Edson Luís de Lima Souto.
“Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor
Flor e fruto”
O título da canção faz referência ao nome de uma flor popular em Minas Gerais, terra natal de Wagner Tiso e terra do coração de Milton, chamada de “Coração de Estudante”.
Em um de seus momentos mais marcantes, a música foi entoada em coro por uma multidão de mais de 60 mil pessoas em um comício realizado no Rio de Janeiro.
Em 1985, a canção ganhou um novo e melancólico significado: após a eleição de Tancredo Neves – que se tornaria o primeiro presidente civil após a ditadura, mas que adoeceu e veio a falecer antes de tomar posse – “Coração de Estudante” foi incessantemente utilizada como tema de fundo nas reportagens jornalísticas que acompanhavam a agonia e o velório do político.
O próprio Tancredo era um admirador da canção, o que ajudou a associá-la com o fim do regime militar e a esperança de um novo ciclo democrático.



