Uma bactéria que vive no estômago, a Helicobacter pylori, infecta milhões de pessoas e muitas vezes passa despercebida. Em parte dos casos, porém, ela inflama a mucosa, causa úlcera e, em situações menos comuns, está ligada ao câncer de estômago. “Em grande parte das pessoas infectadas, a presença da bactéria não causa sintomas”, afirma o cirurgião do aparelho digestivo Antonio Couceiro Lopes, membro da Brazil Health.
Como ela age e como se pega
Descoberta em 1982, a H. pylori sobrevive no ambiente ácido do estômago graças a uma enzima que neutraliza temporariamente a acidez local. Essa adaptação permite que a infecção dure anos, até a vida toda, se não tratada.
A transmissão acontece principalmente na infância, por água e alimentos contaminados ou pelo contato com saliva. “A infecção por H. pylori geralmente acontece na infância, principalmente em locais com condições sanitárias precárias.” Em regiões com saneamento inadequado, a prevalência chega a mais de 70% dos adultos; no Brasil, gira em torno de 60%, maior em áreas de baixa renda.
Embora o risco individual de câncer seja baixo, o impacto coletivo é grande pelo número de infectados. A Organização Mundial da Saúde classifica a bactéria como agente cancerígeno comprovado.
Alimentação: o que pesa na balança
Não há um alimento específico que cause a infecção, mas a dieta pode piorar ou proteger o estômago. Consumo frequente de processados, muito sal, carnes defumadas e embutidos agrava a inflamação e aumenta o risco de complicações. Já um cardápio com frutas, verduras, grãos integrais e fontes de antioxidantes tende a proteger a mucosa. O microbioma intestinal, conjunto de bactérias benéficas do intestino, também pode influenciar a resposta do corpo à H. pylori.

Diagnóstico e tratamento: do teste à confirmação
O diagnóstico pode ser feito sem procedimentos invasivos. O teste respiratório com ureia marcada é o mais sensível e o exame de fezes identifica antígenos da bactéria. Em alguns casos, a endoscopia com biópsia é indicada para análise direta do tecido do estômago.
O tratamento combina antibióticos e remédios que reduzem a acidez, como omeprazol e similares. “A erradicação da H. pylori é feita por meio de antibióticos combinados com medicamentos que reduzem a acidez do estômago.” Diante de resistência a antibióticos mais usados, médicos recorrem a esquemas com bismuto e alternativas como tetraciclina e metronidazol, por 10 a 14 dias.
Confirmar a eliminação é parte do protocolo. “Após o tratamento, recomenda-se repetir o teste respiratório ou de fezes, cerca de quatro semanas depois, para confirmar a eliminação da bactéria.”
Reduzir a presença da H. pylori em populações de maior risco é uma estratégia eficaz para diminuir casos de câncer de estômago. Para o especialista, diagnosticar e tratar pessoas com queixas digestivas persistentes, história familiar de câncer gástrico ou úlcera é medida de prevenção que salva vidas. Como resume Lopes: “A Helicobacter pylori é mais do que uma bactéria comum: é um elo importante entre infecção, ambiente e predisposição genética.”



