BaianaSystem: o som da Bahia que conquistou o mundo sem perder suas raízes

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Quando o BaianaSystem surgiu, em 2009, muita gente acreditou que se tratava apenas de mais uma banda baiana. Bastaram alguns shows para ficar claro que o projeto era muito maior. O grupo criou uma linguagem própria, misturando a tradição afro-baiana com música eletrônica, reggae, rap, samba-reggae, dub, rock, ijexá e ritmos de matriz africana. O resultado foi um movimento cultural que extrapolou a música e passou a representar uma nova forma de pensar a identidade brasileira.

Idealizado pelo guitarrista Roberto Barreto, o BaianaSystem nasceu com uma missão clara: resgatar a guitarra baiana, instrumento criado em Salvador na década de 1940 e considerado um dos precursores da guitarra elétrica no Brasil. Durante anos, esse instrumento ficou restrito ao carnaval baiano e aos trios elétricos. O grupo decidiu colocá-lo novamente no centro da cena, agora dialogando com as sonoridades urbanas do século XXI.

Ao lado do vocalista Russo Passapusso, o projeto ganhou personalidade própria. Sua voz forte e suas letras carregadas de crítica social deram ao BaianaSystem uma identidade única. As canções falam sobre desigualdade, racismo, pertencimento, periferias, ancestralidade, espiritualidade e resistência, sempre com uma linguagem poética que convida o público à reflexão.

Mas o BaianaSystem nunca quis ser apenas uma banda de protesto. Seu objetivo sempre foi celebrar a potência da cultura popular brasileira. Em seus shows, o palco se transforma em uma experiência coletiva, onde música, dança, artes visuais e performance dialogam o tempo todo. Não há distância entre artista e plateia. Há um encontro de corpos, histórias e identidades.

Grande parte dessa força vem da influência direta da cultura afro-baiana. O grupo bebe na fonte dos blocos afro, dos terreiros, dos sambas de roda, da capoeira e das manifestações populares de Salvador. Ao mesmo tempo, conversa com a cultura dos sound systems jamaicanos, do hip-hop e da música eletrônica contemporânea, criando uma sonoridade impossível de enquadrar em um único gênero.

Álbuns como Duas Cidades, O Futuro Não Demora e OXEAXEEXU consolidaram o BaianaSystem como um dos projetos musicais mais inovadores do Brasil. O disco O Futuro Não Demora, vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa, mostrou que era possível fazer música profundamente brasileira e, ao mesmo tempo, universal.

Canções como “Lucro (Descomprimindo)”, “Sulamericano”, “Capim Guiné”, “Play Som” e “Reza Forte” tornaram-se verdadeiros hinos para uma geração que busca discutir identidade, diversidade e justiça social sem abrir mão da celebração.

Outro diferencial do grupo está em seu compromisso com a coletividade. O BaianaSystem nunca foi construído em torno de um único artista. Pelo contrário, reúne músicos, produtores, cineastas, ilustradores e pesquisadores que entendem a cultura como um processo colaborativo. Essa característica faz com que cada álbum e cada apresentação tragam novas linguagens e experimentações.

A presença do grupo também extrapola os palcos. Em diferentes momentos, seus integrantes participaram de projetos voltados para educação, cultura popular e valorização das periferias, reforçando a ideia de que a arte pode ser uma ferramenta de transformação social.

Mais do que representar a Bahia, o BaianaSystem representa um Brasil múltiplo, negro, indígena, popular e profundamente criativo. Sua música mostra que tradição não significa olhar apenas para o passado, mas reconhecer as próprias raízes para construir novos caminhos.

Em um cenário musical frequentemente marcado pela repetição, o BaianaSystem escolheu inovar sem romper com sua ancestralidade. Transformou a guitarra baiana em símbolo de modernidade, levou a força da cultura afro-brasileira para festivais ao redor do mundo e provou que o futuro da música brasileira passa, inevitavelmente, pelo reconhecimento de sua diversidade. É a Bahia dialogando com o mundo — e o mundo respondendo no mesmo compasso.

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