Mais de R$ 23 bilhões já saíram do bolso dos brasileiros, em 2025, apenas para o pagamento de subsídios embutidos na conta de luz. O número vem do subsidiômetro, ferramenta da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que calcula em tempo real quanto os consumidores pagam para financiar diversos incentivos no setor elétrico, de painéis solares a termelétricas movidas a óleo combustível.
Segundo o professor Edivaldo Santana, ex-diretor da Aneel e docente da Universidade Federal de Santa Catarina, os subsídios representam atualmente 15,92% do valor total da tarifa de energia elétrica no país. Em outras palavras, quase R$ 16 de cada R$ 100 pagos vão diretamente para custear esses encargos, uma distorção que afeta principalmente a população mais pobre.
“É um valor extremamente elevado. O Brasil é recordista mundial em subsídios no setor elétrico. O mais perverso é que os mais pobres pagam pelos mais ricos”, afirma o professor.
Para onde vai o dinheiro?
O subsidiômetro mostra que a maior parte dos recursos é destinada a três grandes frentes:
Fontes incentivadas de geração, como eólicas, solares, pequenas centrais hidrelétricas e biomassa, que somam, juntas, quase R$ 16 bilhões em 2025;
Geração distribuída, como os painéis solares instalados nos telhados de residências e comércios;
Subsídios a combustíveis fósseis usados no chamado “sistema isolado”, que atende regiões da Amazônia e do Norte do país, com destaque para o óleo combustível (quase R$ 4 bilhões) e o carvão mineral, cujo incentivo já está garantido até 2042.
Enquanto isso, o subsídio à tarifa social de energia elétrica, voltado à população de baixa renda, representa pouco mais de R$ 2 bilhões, uma fração do que é destinado a grandes consumidores e fontes já consolidadas no mercado.
Sem prazo para acabar
Apesar da redução significativa no custo de produção de energias como a solar e a eólica, os subsídios continuam, e até aumentaram. “O custo da energia eólica caiu 65% desde 2010. Mesmo assim, os incentivos foram mantidos. No Brasil, o subsídio começa, mas não tem data para terminar”, critica Edivaldo Santana.
Segundo ele, diversas medidas provisórias acabam incorporando novos pedidos de subsídio, criando um ciclo que se retroalimenta. “Todo grupo quer o seu. E quem paga é o consumidor, que muitas vezes nem sabe que está bancando isso.”
Impactos e reações
O peso desses encargos já influencia o comportamento de parte da população. Proprietários de chácaras e pequenas propriedades no interior paulista, por exemplo, têm optado por sistemas próprios de energia solar com baterias, desligando-se completamente da rede elétrica convencional. “É mais barato do que continuar pagando tarifas tão altas”, diz o professor.
Esse movimento, que só era esperado para depois de 2035, já ocorre em 2025, um indicativo de que o atual modelo pode estar perdendo eficiência e adesão.
O debate sobre a transparência e a reformulação do sistema de subsídios cresce. A conta de luz, além de incluir os custos de geração e distribuição de energia, embute hoje uma série de encargos que nem sempre são claros ao consumidor. E, como lembra Edivaldo Santana, entender a conta é o primeiro passo para poder opinar, cobrar e exigir mudanças.



