A cidade é cinza, barulhenta e inquieta. Entre bares decadentes, filmes baratos, salas de interrogatório e personagens à deriva, a São Paulo dos anos 70 ganha corpo no romance Buraco de bala, de Bruno Imparato.
Logo na abertura, o autor avisa o tom da história: “São Paulo nos anos 70 não é um ponto no tempo-espaço. É estado de espírito. Uma sensação vulgar de desespero, armada e tóxica. Boca do lixo é um lugar onde os sonhos morrem”. A partir daí, o livro segue em ritmo acelerado, direto, com frases curtas e cenas duras.

Uma cidade atravessada pela violência
A trama se passa durante o período mais pesado da ditadura militar, depois do AI-5, quando o Estado amplia a repressão, a tortura e o medo. Mas o contexto histórico funciona mais como atmosfera do que como aula de política. O foco está nas histórias dos personagens.
A narrativa circula por um universo de cineasta pornô, filmes B, uma atriz desaparecida, delegados, investigadores, salas do DOPS e figuras que transitam entre a sobrevivência e a brutalidade cotidiana. Tudo é mostrado sem glamour: o ambiente é sujo, tenso e marcado por uma sensação constante de ameaça.
Ficção que flerta com a realidade
Imparato constrói o romance com idas e vindas, misturando elementos de ficção e referências históricas reais. O leitor nunca tem certeza absoluta de onde termina o documento e começa a invenção, e é justamente esse jogo que sustenta o suspense.
Músicas conhecidas da época aparecem ao longo do texto, como se acompanhassem a leitura como trilha sonora de fundo, ajudando a situar o leitor naquele Brasil em transformação.
Depois do regime, o que fica
O livro também avança para o período seguinte à ditadura, mostrando como a linguagem da violência não desaparece de uma hora para outra. Mesmo com a mudança política, certos comportamentos continuam presentes no dia a dia.
Sem romantizar o passado, Buraco de bala propõe uma leitura direta e incômoda sobre memória, poder e os resquícios de um período que ainda ecoa no presente.
Com 224 páginas, o romance é uma opção para quem gosta de histórias urbanas, tensas e com forte contexto histórico, daquelas que prendem mais pelo clima e pelos personagens do que por respostas fáceis.
Quem é o autor

Formado em cinema e relações internacionais, Bruno Imparato construiu uma trajetória que mistura cultura e serviço público. Já dirigiu curtas-metragens, trabalhou na área cultural do Itamaraty, foi diretor artístico da Fundação Theatro Municipal de São Paulo e coordenou as celebrações do centenário da Semana de Arte Moderna. Hoje atua como diplomata na missão do Brasil junto às Nações Unidas, em Nova York, experiência que atravessa sua escrita com um olhar atento às estruturas de poder e às contradições da vida política.
Ficha técnica
Título: Buraco de bala
Autor: Bruno Imparato
Páginas: 224
Editora: Patuá



