Cada época produz seus próprios adoecimentos. É a partir dessa ideia que o psicólogo e psicanalista Francisco Nogueira propõe olhar para o avanço recente do burnout, um esgotamento ligado ao trabalho que tem levado cada vez mais pessoas a se afastarem de suas funções.
Segundo ele, os números chamam atenção: houve aumento de afastamentos por burnout próximo de 500% nos últimos quatro anos. Para o especialista, esse cenário convida a uma pergunta incômoda sobre o tempo em que vivemos: por que esse tipo de sofrimento tem crescido tanto?
Embora o burnout tenha passado a ser caracterizado como doença ocupacional, Nogueira pondera que o aumento não pode ser explicado apenas por mudanças de registro ou de legislação. Ele lembra que o problema segue subnotificado, já que “tem muita gente sofrendo burnout ainda sem saber do que sofre, ou sem procurar tratamento, ou sem apresentar os resultados de seus exames ao RH com medo de sofrer represálias ou mesmo perder o emprego”.
O que mudou no mundo do trabalho
Na avaliação do psicanalista, há pelo menos dois fatores centrais por trás da escalada. O primeiro está nas transformações da última década no trabalho, com a presença intensa de tecnologias digitais e a perda de garantias e direitos em um processo conhecido como precarização.
Esse novo ambiente, diz ele, elevou a régua das exigências e remodelou a forma de cobrança: “As novas tecnologias transformaram as relações de trabalho, impondo novos padrões de demanda, presença e avaliação.” Ao mesmo tempo, acrescenta, “a tecnologia vem sendo cúmplice no processo de precarização e perda de garantias”.

Quando a performance vira identidade
O segundo fator, segundo Nogueira, é menos visível, mas igualmente poderoso: a força dos discursos de performance e empreendedorismo. Para ele, não se trata apenas de uma “moda coach”, e sim de uma visão de mundo que altera a relação das pessoas com elas mesmas.
Nessa lógica, explica, a exigência é constante: “é preciso ser ‘empresário de si mesmo’, enxergar-se e atuar como uma pessoa jurídica”. O problema, aponta ele, é que essa conta não fecha na vida real, porque “por nunca deixar de ser uma pessoa física encarnada, ficará sempre aquém das exigências, será sempre insuficiente”.
O resultado, diz, vai além do cansaço: envolve frustração, isolamento e perda de referências coletivas, com efeitos emocionais que se acumulam no tempo.
Para o especialista, o burnout acaba funcionando como um retrato social: “A síndrome de burnout recai sobre as pessoas como o sintoma de uma sociedade que cresce às custas do consumo da nossa vitalidade psíquica e que transforma a busca por resultados em uma espécie de servidão autoimposta.”
Por que o problema não se resolve só com remédio
Ao discutir caminhos de enfrentamento, Nogueira alerta para o risco de tratar o burnout apenas como um problema individual. “Pensar qualquer saída para o problema apenas medicalizando a síndrome de burnout é tentar adaptar o sujeito ao próprio sistema que o adoeceu”, afirma.
Para ele, soluções duradouras passam por combinar cuidado em saúde com mudanças no modo de organizar o trabalho e nas escolhas coletivas. Se o adoecimento é produzido socialmente, conclui, encarar essa responsabilidade e transformar o que for necessário pode ser “o remédio mais eficaz e duradouro contra este mal”.


