Falar de Carnaval é falar, inevitavelmente, da música negra. A história da folia brasileira é atravessada por ritmos que nasceram da diáspora africana, da dor, da fé e da criatividade do povo preto. O samba, o maracatu, o ijexá, o afoxé, o jongo e tantos outros sons não apenas animam os blocos — eles contam a história do Brasil por meio do ritmo.
O samba, por exemplo, foi criminalizado antes de ser celebrado. Surgiu nos quintais das tias baianas, nas rodas de batuque, nos terreiros, nos encontros de gente preta que resistia ao apagamento. O Carnaval transformou esse som em símbolo nacional, mas raramente reconhece que ele nasce da marginalização e da luta.
O ijexá carrega espiritualidade. É o ritmo dos orixás, da caminhada, do corpo que dança com o chão. Nos blocos afro, ele vira celebração da ancestralidade e afirmação de identidade. Já o maracatu, com seus tambores pesados e cortejos reais, transforma a rua em reinado preto.
Cada música tocada no Carnaval é um arquivo vivo da história negra no Brasil. Elas falam de saudade, de fé, de amor, de sobrevivência e de esperança. O corpo que dança está também se lembrando.
Quando escutamos essas músicas sem entender sua origem, corremos o risco de folclorizar o que é político. A cultura negra não é decoração — é fundamento. É ela que deu alma ao Carnaval.
Valorizar as músicas tradicionais negras é reconhecer que o Brasil só existe como é porque o povo preto construiu sua estética, sua linguagem, sua sonoridade. O Carnaval é o maior palco dessa herança. Dançar é também um ato de memória.


