Há escritores que contam histórias. Há escritores que constroem personagens memoráveis. E há aqueles que – além disso tudo – expõem a experiência crua de estar vivo, como é o caso de Clarice Lispector.
Ler Clarice não é acompanhar um enredo. É atravessar um pensamento. Sua literatura não organiza o mundo, ela o desestabiliza. Muitas vezes não oferece respostas ou conforto ao leitor. Mas oferece espelho. E, muitas vezes, um espelho incômodo, porém necessário, reflexivo.
Em um tempo que valoriza produtividade, clareza e respostas rápidas, Clarice Lispector escreveu sobre hesitação. Sobre falha. Sobre o instante em que a identidade vacila. E talvez seja justamente por isso que sua obra atemporal continue tão necessária.

O Fluxo de Consciência como risco
Clarice escreveu como quem pensa e pensar raramente é linear.
O chamado “Fluxo de Consciência” não é apenas um recurso técnico em sua obra. É um posicionamento estético e existencial. Ao abandonar narrativas convencionais, ela escolheu acompanhar o movimento interno das personagens: dúvidas interrompendo frases, pensamentos que se dobram sobre si mesmos, ideias que não chegam a uma conclusão concreta.
Em “A Paixão Segundo G.H.”, por exemplo – livro de 1964 – a narrativa não avança em acontecimentos, mas aprofunda-se em uma implosão subjetiva. A personagem não enfrenta o mundo; enfrenta a própria percepção de si. O texto gira, retorna, insiste. Como a mente de Clarice. Como a nossa mente.
Uma mulher identificada apenas pelas iniciais G.H., que depois de demitir a empregada e tentar limpar seu quarto, relata a perda da individualidade após ter esmagado uma barata na porta de um guarda-roupas. No dia seguinte ela narra a própria impotência de escrever o episódio.
A história se organiza em capítulos de sequência sistemática – cada um começa com a mesma frase que serve de fechamento ao anterior. A interrupção, assim, é elemento de continuidade, numa representação simbólica do que é a experiência de G.H.
Já em “A Hora da Estrela” – de 1977 – a aparente simplicidade da história esconde um narrador que questiona o próprio ato de narrar. A dúvida está no centro. Nada é completamente estável, nem mesmo a voz que conta.
Clarice Lispector cria Rodrigo S.M. para contar a história de Macabéa, uma moça sonhadora e ingênua, recém-chegada do Nordeste ao Rio de Janeiro, às voltas com valores e cultura diferentes.
Segundo a autora, essa história não poderia ser contada por uma mulher. Rodrigo assume, portanto, o papel de autor e diz: “Essa história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo me dê. Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amém para nós todos.”.
Clarice não escrevia sobre certezas. Escrevia sobre o processo humano de não saber.

A coragem de não dar conta
As personagens de Clarice Lispector são, muitas vezes, inadequadas, como ela. Como nós. Não performam força. Não vivem jornadas de superação no sentido clássico. Elas falham, hesitam, sentem-se deslocadas, se questionam. E há algo profundamente contemporâneo nisso.
Vivemos sob a pressão de sermos coerentes, produtivos, emocionalmente resolvidos. As redes sociais transformaram a performance em identidade. A vida precisa parecer organizada, mesmo quando não está. A famosa paz fingida em meio ao caos.
E a Clarice faz o oposto: ela expõe a desorganização interna, legitima o desconforto de existir, mostra que a consciência humana é fragmentada, contraditória, imperfeita. E que é justamente aí que reside sua verdade.
Clarice Lispector: Imperfeição como revolução
Ao escrever pelo Fluxo de Consciência, Clarice Lispector não polia seu pensamento, mas sim o apresentava em estado bruto. Com repetições, com desvios, com fragilidade. E isso é revolucionário!
Porque admitir fragilidade exige coragem, admitir que não se tem respostas exige maturidade e admitir que se é incompleto exige honestidade.
Clarice não buscava personagens exemplares, buscava personagens humanos. E, ao fazer isso, criou uma literatura que não envelhece, porque as experiências da busca, da dúvida, do questionar a si e ao mundo não envelhecem.
E é exatamente por isso que a escritora ainda nos atravessa de tantas formas. Porque hoje – ainda mais – tentamos parecer fortes o tempo todo, seguimos desconfortáveis com o silêncio, temos dificuldade de aceitar nossa própria imperfeição.
Clarice Lispector escreveu sobre a instabilidade como condição permanente. Sobre o pensamento que escapa. Sobre o eu que nunca é totalmente sólido.
Ela não ofereceu soluções, ofereceu consciência. E talvez seja por isso que sua obra permaneça tão atual: em meio a um mundo que exige respostas rápidas, ela nos lembra que a dúvida também é uma forma de lucidez.
Ler Clarice é aceitar que existir é imperfeito. E que há uma espécie de liberdade nisso. Viva a complexidade imperfeita, atemporal e mutante de Clarice Lispector. Por mais Clarices em nossa literatura, mas também em nosso mundo!


