A cólica menstrual ainda é encarada por muitas mulheres como algo inevitável do mês. Mas, quando a dor é intensa a ponto de interromper a rotina, causar faltas ao trabalho ou exigir uso frequente de remédios, o sinal de alerta deve acender. A ginecologista Ana Horovitz destaca que desconforto leve pode acontecer, mas “dor incapacitante e recorrente não deve ser normalizada”.
Conhecida na medicina como dismenorreia, a cólica ocorre principalmente por causa da liberação de prostaglandinas, substâncias ligadas à inflamação. Elas estimulam contrações do útero para eliminar o endométrio durante a menstruação. Em algumas mulheres, essas contrações ficam mais fortes, reduzem temporariamente o fluxo de sangue na região e provocam dor.
Dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) indicam que a cólica pode afetar até 80% das mulheres em idade reprodutiva em algum grau. Em cerca de 10% a 15% dos casos, a dor é intensa o suficiente para comprometer a rotina.
Mesmo assim, há medidas simples de autocuidado que costumam ajudar a reduzir os sintomas e melhorar o bem-estar em muitas mulheres.
O que pode aliviar a cólica no dia a dia
1) Calor local Entre as estratégias mais eficazes está o calor na parte inferior do abdômen. Bolsas térmicas, compressas mornas e banhos quentes ajudam a relaxar a musculatura da região pélvica e podem diminuir a intensidade das contrações uterinas. “O calor traz alívio e também uma sensação de relaxamento, especialmente quando combinado com repouso adequado”, explica Ana Horovitz.
Estudos internacionais apontam que, em casos leves e moderados, o calor contínuo pode oferecer alívio semelhante ao de anti-inflamatórios para algumas pessoas.
2) Movimento (em vez de ficar totalmente parada) A ideia de que o melhor é ficar imóvel caiu por terra. Caminhadas, alongamentos, yoga e exercícios leves podem melhorar a circulação e estimular a liberação de endorfinas, associadas à sensação de bem-estar e à redução da dor. A orientação geral é respeitar os limites do corpo e optar por atividades mais suaves.
3) Alimentação e hidratação O que se come também pode influenciar a intensidade do desconforto. Dieta rica em ultraprocessados, excesso de açúcar, álcool e muito consumo de cafeína pode favorecer processos inflamatórios e piorar os sintomas em algumas mulheres.
Por outro lado, hidratação adequada e uma alimentação com frutas, verduras, vegetais e nutrientes como magnésio e ômega-3 podem contribuir para uma resposta inflamatória mais equilibrada do organismo.
4) Sono e estresse Dormir bem e reduzir o estresse também entram na conta. O estresse aumenta a liberação de cortisol e pode amplificar a percepção da dor, criando um ciclo difícil de quebrar.

Quando a cólica merece investigação médica
Há diferença entre a cólica chamada “primária”, mais comum em adolescentes e mulheres jovens, e a dor causada por doenças ginecológicas. O ponto de atenção é quando os sintomas fogem do padrão esperado.
Segundo a ginecologista, é importante procurar avaliação quando a dor:
- · piora progressivamente ao longo dos anos;
- · aparece fora do período menstrual;
- · vem com dor durante a relação sexual;
- · se associa a alterações intestinais;
- · ocorre com sangramento excessivo;
- · surge junto de dificuldade para engravidar.
Nessas situações, uma das principais hipóteses é a endometriose, doença inflamatória crônica. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva convivem com a condição.
Um dos grandes desafios é o tempo até o diagnóstico. Dados internacionais apontam que muitas mulheres levam de sete a dez anos para identificar corretamente o problema. “Tratar dor intensa como algo normal pode atrasar um cuidado importante e afetar qualidade de vida, saúde emocional e planos reprodutivos”, alerta Ana Horovitz.
A mensagem principal é que há maneiras simples de aliviar a cólica em muitos casos, mas dor persistente, intensa ou que muda de padrão precisa ser avaliada individualmente por um profissional de saúde.

