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Conheça a história da famosa marchinha “Pierrô Apaixonado”

Hoje – 23 de setembro – é celebrado o dia do nascimento do grande cantor, compositor e pintor carioca Heitor dos Prazeres. Heitor é autor – em parceria com um dos maiores sambistas da nossa história, Noel Rosa – de uma das mais famosas marchinhas de carnaval do Brasil: “Pierrô Apaixonado”, canção inspirada na Commedia dell’Arte.  Vamos conhecer essa história?

O encontro de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres

Sim! O cantor e compositor Heitor dos Prazeres era multitalentos: além de cantar e compor, ele também era pintor e bailarino! Sambista pioneiro, o artista ainda fazia instrumentos de percussão e projetava e desenvolvia os figurinos, móveis e tapeçaria de seus grupos musicais e de dança. 

Sua residência, na Praça Tiradentes – centro do Rio de Janeiro – era um ponto de encontro de pessoas interessadas na sua arte e em seu conhecimento da cultura afro-brasileira.

Entre os visitantes da casa de Heitor dos Prazeres, estava o estudante de medicina e futuro compositor carioca Noel Rosa, que – pouco depois – tornou-se um dos maiores artistas da nossa história!

Certo dia, o galanteador Noel pediu que Heitor – conhecido também como um grande especialista em capoeira –  oajudasse a enfrentar um marinheiro agressivo que estava assediando sua namorada. 

Os dois foram juntos dar um aviso ao marinheiro, o que foi suficiente para afastá-lo. Enquanto retornavam, Heitor dos Prazeres cantarolou a marcha carnavalesca que estava compondo e para a qual também estava fazendo uma ilustração.

Noel Rosa gostou muito da marcha esugeriu algumas mudanças na letra: no lugar de “Depois de tanta desgraça, ele pegou na taça e começou a rir”, sugeriu a genial frase: “Levando este grande chute foi tomar vermute com amendoim”.

Foi assim que nasceu a parceria entre Noel Rosa e Heitor dos Prazeres na canção  “Pierrô Apaixonado”, um dos maiores sucessos da história do carnaval brasileiro, lançado em 1936. 

Gravada inicialmente pela dupla Joel e Gaúcho, com um belo acompanhamento da orquestra Diabos do Céu, em arranjo de Pixinguinha, “Pierrô Apaixonado” foi considerada a melhor marcha do carnaval de 1936 e foi também incluída – no mesmo ano – no filme de comédia musical “Alô, Alô, Carnaval”.

A Commedia dell’Arte: Pierrô, Arlequim e Colombina

A letra da canção faz referência ao amor não-correspondido de Pierrô por Colombina, personagens da Commedia Dell’arte

No século XVI, na Itália, trupes de artistas saiam pelas ruas, entretendo as pessoas, contando suas histórias, fazendo rir, fazendo chorar.  A Commedia Dell”Arte italiana era, no início, caracterizada pela sátira social e ironizava a vida e os costumes das classes dominantes. As peças apresentadas eram improvisadas na hora, como o são hoje os repentes e o rap. 

Ao chegarem nas cidades, se apresentavam em suas carroças ou em palcos improvisados. Mas tinham personagens mais ou menos fixos, que cumpriam certos papéis – como o Pierrot, o Arlequim e a Colombina – e seguiam mais ou menos o mesmo roteiro, inicialmente chamado de “canovaccio”. Alguns atores viviam o mesmo papel durante toda a vida. 

As representações teatrais das trupes da Commedia dell’Arte ridicularizavam os poderosos, desde reis e rainhas, militares, padres, negociantes e nobres em geral. A criação era coletiva: havia um roteiro mais ou menos fixo, mas os atores tinham liberdade de improvisação. Muitas dessas trupes carregavam consigo uma pintura bem grande, com uma rua, casa ou palácio pintados, que servia de cenário. 

O nome italiano do Pierrô era Pedrolino, que virou Pierrot na França do século XIX. Ele vestia roupas brancas feitas de sacos de farinha e tinha o rosto pintado de branco. Hoje ele é conhecido com o rosto todo branco e uma lágrima pendendo de um dos olhos. Vivia sofrendo de amor pela Colombina, que amava Arlequim e, com isso, era ele a principal vítima das piadas dos atores em cena. Pierrô é o “pai” dos palhaços de circo. 

Arlequim, assim como Pierrô, era servo de Pantaleão, o mercador de Veneza (que virou uma peça de Shakespeare). Mas Arlequim era um malandro esperto, preguiçoso e insolente, que já entrava em cena saltitando e fazendo movimentos acrobáticos. Era também um debochado e adorava criar confusões com os outros personagens. Usava uma roupa feita inicialmente de muitos remendos coloridos, em losango, e tinha o rosto sujo de barro. 

Já a Colombina, também empregada da Corte de Pantaleão, surgia vestida de branco e era disputada pelo amor do Pierrô e do Arlequim. Mas ela, apaixonada pelo Arlequim, cantava e dançava graciosamente para encantá-lo. O Pierrô, triste e tímido, ficava ao lado, sofrendo o seu amor.

Sobre Heitor dos Prazeres

O artista Heitor dos Prazeres | Imagem: Reprodução

Heitor dos Prazeres nasceu em 1898, no Rio de Janeiro. Aprendeu com seu pai, que morreu quando ele tinha sete anos, a tocar o clarinete em vários ritmos como polcas, valsas, choros e marchas. 

Heitor só cursou até a quarta série, tendo sido expulso de todos os colégios de padres que frequentou. De seu tio, Hilário Jovino Ferreira, músico conhecido como Lalau de Ouro, ganhou o primeiro cavaquinho. Tomou seu tio como modelo de compositor e aos doze anos, já era conhecido como Mano Heitor do Cavaquinho.

Começou a participar de reuniões religiosas em casas como as de Vovó Celi, Tia Esther, Oswaldo Cruz e Tia Ciata, onde – na companhia de músicos experientes como seu tio, João da Baiana, Donga e Pixinguinha – tocava e improvisava, com instrumentos de percussão ou cavaquinho, ritmos africanos como jongo, lundu, cateretê, até o afrobrasileiro samba.

Enquanto trabalhava como engraxate e vendedor de jornais, frequentava as cervejarias e cinemas mudos próximos à Praça Onze e cafés da Lapa, onde ele podia ouvir os músicos e orquestras típicas da Belle Époque, no Rio de Janeiro. 

As primeiras composições de Heitor dos Prazeres  datam de 1912. Já na década de 1920, assistido por outros sambistas e compositores como João da Baiana e Ismael Silva, ajudou a organizar vários grupos de samba do Rio Comprido, Estácio e outros locais nas proximidades, por isso ficou conhecido como Mano Heitor do Estácio. 

Heitor participou de reuniões na Mangueira e Oswaldo Cruz com Cartola, Paulo da Portela, entre outros, o que levou a participar da criação das primeiras escolas de samba: Deixa Falar, De Mim Ninguém se Lembra e Vizinha Faladeira, no Estácio; e Prazer da Moreninha e Vai como Pode, em Madureira. As duas últimas se uniram e se tornaram a Portela, sua escola de samba favorita, cujas cores azul e branco foram escolhidas por ele. 

A Portela, em 1929, foi a primeira vencedora de uma competição entre escolas, com uma composição sua: “Não Adianta Chorar”. Heitor dos Prazeres também participou na formação da Estação Primeira de Mangueira, com Cartola. Em 1928, fundou – com Nilton Bastos, “Bide” e Mano Rubem – a União do Estácio

Duas das composições que popularizaram o sambista foram “Deixaste Meu Lar” e “Estás Farto de Minha Vida”, ambas de 1925, em parceria e gravadas por Francisco Alves

Em 1933, Heitor compôs a “Canção do Jornaleiro”, a partir de uma letra autobiográfica que falava da vida de crianças que vendem jornais nas ruas. Com essa canção, se iniciou uma campanha para financiar a construção da Casa do Pequeno Jornaleiro, que abriu em 1940. 

Casou-se em 1931 com Glória, com quem teve três filhas. Após a morte de sua esposa, em 1936, dedicou-se às artes visuais, especialmente à pintura, por incentivo do desenhista, jornalista e crítico de arte Carlos Cavalcante, do pintor Augusto Rodrigues e do escritor Carlos Drummond de Andrade

Em 1937, depois do sucesso de “Pierrô Apaixonado”, Heitor dos Prazeres começou a exibir suas pinturas, nas quais retratou a vida nas favelas: crianças brincando, homens jogando ou bebendo, jovens dançando samba, etc. Representava os rostos das pessoas de perfil, com a cabeça e os olhos voltados para cima. 

No final de 1930, Heitor dos Prazeres atuou como músico, cantor e dançarino no Casino da Urca, com Josephine Baker e Grande Otelo. Foi contratado pelo ator, diretor, escritor e produtor norte-americano Orson Welles, como coreógrafo de um filme sobre cultura afro-brasileira, centrado no samba e no carnaval. 

Também tocou seu cavaquinho em programas de auditório das rádios do Rio de Janeiro acompanhado pelo grupo “Heitor dos Prazeres e Sua Gente”, composto por vocalistas e outros músicos percussionistas e passistas.

Em 1943 obteve o primeiro concurso oficial de Música de Carnaval, organizado pela prefeitura do Distrito Federal, pelo samba “Mulher de Malandro”, na voz de Francisco Alves. 

Também nesse ano apresentou o samba “Lá em Mangueira”, em parceria com Herivelto Martins e gravado pelo duo Branco e Preto e Dalva de Oliveira, começou a trabalhar na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e a expor suas pinturas em exposições locais e no exterior. 

Graças a uma exposição organizada pela RAF em Londres, para arrecadar fundos para as vítimas da Segunda Guerra Mundial, a então princesa Elizabeth adquiriu seu quadro “Festa de São João”.

A pedido de seu amigo Carlos Cavalcante, em 1951 Heitor dos Prazeres participou da primeira Bienal de Arte Moderna de São Paulo, com a presença de artistas de todo o mundo, e ganhou o terceiro prêmio entre os artistas nacionais, com seu quadro “Moenda”. Na segunda Bienal de São Paulo, em 1953, foi reservada uma sala para a exposição de sua obra. 

Ele também criou cenários e figurinos para o balé do quarto centenário da cidade de São Paulo. Em 1959, exibiu pela primeira vez individualmente na Galeria Gea Rio de Janeiro. 

O artista morreu em outubro de 1966, aos 68 anos, deixando um legado de cerca de 300 composições. Antonio Carlos da Fontoura dirigiu, em 1965, um documentário sobre sua vida e obra.

Sobre Noel Rosa

Para saber tudo sobre a vida e a obra de Noel Rosa, assista ao especial Arquivo Novabrasil sobre o sambista. Um programa original Novabrasil promove a vida e a obra de grandes nomes da música popular brasileira. Uma verdadeira enciclopédia da MPB:

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