Com uma escrita fragmentada, poética e profundamente sensorial, Aline Bei constrói romances que parecem atravessar o leitor, não apenas pela temática, mas pelo ritmo, pela respiração do texto, pela forma como as palavras ocupam a página.
A escritora paulistana de 38 anos é graduada em Letras pela PUC-SP e em Artes Cênicas pelo Célia Helena Centro de Artes e Educação e – talvez por isso – seu trabalho flerte com o teatro, mesclando a oralidade e o silêncio.
E talvez seja justamente esse silêncio – o que dói, o que fica, o que não se diz – que move suas histórias. A literatura de Aline Bei não é confortável e talvez essa seja sua maior força, como acontece com Clarice Lispector.
Seus romances não oferecem respostas fáceis nem finais redentores. Eles convidam o leitor a permanecer na pergunta, no intervalo, na pausa. Em um cenário literário que muitas vezes privilegia a velocidade, Aline aposta na escuta.
Ela explora temas profundos e emocionais, usando uma prosa lírica que muitas vezes mistura realismo e elementos oníricos. A autora é reconhecida por criar atmosferas intensas e imagens vívidas, que transportam o leitor para as experiências emocionais dos personagens.
Inspira-se no ator e diretor russo Constantin Stanislavski para abordar questões existenciais, relações humanas, traumas e descobertas pessoais. Por meio de sua escrita, Aline Bei consegue mergulhar nas complexidades dos sentimentos e pensamentos de seus personagens, criando uma conexão emocional entre o leitor e a história.
A seguir, conheça os três romances que consolidaram seu nome na literatura brasileira contemporânea.
O Peso do Pássaro Morto (2017)

Depois de ganhar o Prêmio Toca, criado pelo escritor Marcelino Freire, ela escreveu seu primeiro romance, em 2017: “O Peso do Pássaro Morto”, publicado pela editora Nós. Com ele, foi a vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos.
O livro rompe com o tradicionalismo na escrita de obras literárias e possui uma apresentação estética que lembra prosa e poema, mas no entanto é uma criação própria de escrita da autora, que também pode ser considerada como “prosa poética”, por este motivo é analisada como uma obra inovadora do século XXI.
Voltado para um público adulto, possui uma descrição sobre acontecimentos desde a infância até a vida adulta de uma mulher, dos 8 aos 52 anos. Nas palavras da autora “O livro surgiu de uma experiência que eu tive na infância, quando um canário morreu na minha mão”.
A narrativa fala sobre crescimento, violência, maternidade, perda e sobrevivência, mas nada é linear. Aline fragmenta o texto como se estivesse encenando a memória. Mais do que contar a história de uma mulher, o livro mergulha naquilo que fica quando tudo desmorona.
“O Peso do Pássaro Morto” também foi publicado em francês, com o nome “Le poids de cet oiseau-là” e, em 2020, ganhou uma adaptação teatral em streaming com idealização e atuação de Helena Cerello, direção de Nelson Baskerville e música original de Daniel Maia. Essa adaptação foi, mais tarde, reproduzida nos palcos em formato monólogo presencial.
Pequena Coreografia do Adeus (2021)

Em 2022, Aline Bei foi novamente finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e ficou entre os cinco finalistas do 64º Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário com seu segundo livro, “Pequena Coreografia do Adeus”, publicado pela Companhia das Letras, em 2021.
Se no primeiro romance a protagonista atravessa as décadas, aqui acompanhamos uma jovem tentando entender a ausência do pai.
“Pequena Coreografia do Adeus” é um livro sobre abandono, mas também sobre a tentativa de organizar o caos interno. A linguagem segue pulsante, com quebras de linha que parecem marcar batimentos cardíacos. A personagem escreve, imagina, conversa com fantasmas e com o próprio passado.
Uma Delicada Coleção de Ausências (2023)

Seu romance mais recente – também publicado pela Companhia das Letras – aprofunda ainda mais o trabalho com memória e silêncio. Aqui, a autora investiga as marcas deixadas por relações familiares, expectativas e frustrações acumuladas.
Em “Uma Delicada Coleção de Ausências”, Aline Bei volta a explorar temas como maternidade e infância em Uma delicada coleção de ausências, um romance emocionante sobre três mulheres — neta, avó e bisavó — que precisam conviver em suas individualidades enquanto dividem traumas e mágoas que perpassam gerações.
Neste romance, a autora observa as mulheres em detalhes: os corpos jovens e envelhecidos, os desejos primitivos, as frustrações geracionais, o trabalho de cuidado, as incontáveis violências às quais são submetidas. Ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, investiga a determinação inabalável feminina, os afetos que salvam e a força para romper com sofrimentos que parecem não ter fim.
O texto mantém a estética fragmentada que já se tornou assinatura da escritora, mas ganha novas camadas de maturidade narrativa. Há uma espécie de inventário emocional, como se cada ausência fosse cuidadosamente catalogada, examinada, tocada com delicadeza.


