Transformações como aposentadoria, perdas afetivas e mudanças de rotina podem deixar a saúde mental dos idosos mais frágil. Segundo dados citados pela geriatra Julianne Pessequillo, cerca de um terço dos idosos no mundo apresenta sintomas depressivos; no Brasil, até 13% dos maiores de 60 anos relatam diagnóstico, de acordo com a PNS/IBGE. “A saúde mental na terceira idade é questão de dignidade”, afirma a especialista.
A médica ressalta que muitos sinais ainda são confundidos com o “natural da idade”, o que atrasa a busca por ajuda. “Cuidar da saúde emocional dos idosos é tão essencial quanto cuidar da saúde física”, diz Pessequillo.
Por que o idoso fica mais vulnerável
O envelhecer traz ganhos, como maturidade, mas também desafios que podem abrir caminho para a depressão, sobretudo quando há solidão e rupturas na rotina. Entre os fatores que aumentam o risco, a geriatra destaca:
- · Isolamento social após a aposentadoria, perdas e menor mobilidade
- · Luto repetido, que reabre feridas e fragiliza o emocional
- · Doenças crônicas e dor, que afetam bem-estar e autonomia
- · Dependência de terceiros, gerando vergonha e sensação de inutilidade
- · Aposentadoria sem planejamento, que abala identidade e propósito
- · Baixo reconhecimento dos sintomas, confundidos com envelhecimento
Somam-se a isso preconceitos que minimizam o sofrimento psíquico na velhice e silenciam pedidos de ajuda.
Sinais que pedem atenção
No idoso, a depressão costuma ser mais sutil e mascarada por queixas físicas. Mudanças persistentes no comportamento ou no humor merecem atenção:
- · Perda de interesse por atividades antes prazerosas
- · Irritabilidade, choro fácil e frases de desvalorização
- · Lentificação ou agitação incomum
- · Queda no autocuidado
- · Dores sem explicação clínica
- · Alterações de sono e apetite
- · Isolamento progressivo
- · Lentidão no raciocínio ou dificuldade de concentração

Acolhimento e tratamento mudam o desfecho
“A depressão não é parte natural do envelhecimento.” Para Pessequillo, diagnóstico precoce e apoio consistente devolvem qualidade de vida. “Com diagnóstico precoce e apoio adequado, o idoso pode recuperar autonomia e qualidade de vida”, afirma.
O tratamento é individualizado e pode incluir psicoterapia, intervenções sociais, atividades comunitárias e, quando indicado, medicação sob supervisão médica, com atenção a interações entre remédios. A atuação integrada de médico, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, assistente social e família ajuda a restaurar funcionalidade, autoestima e autonomia.
Acima de tudo, o acolhimento é inegociável. “Nenhum tratamento funciona sem acolhimento. Minimizar o sofrimento com frases como ‘é da idade’ rompe a confiança. O idoso deprimido precisa ser ouvido e validado”, diz a geriatra. E conclui: “Envelhecer não significa perder alegria, mas redescobri-la com novos significados”.



