Antes de uma cirurgia digestiva, nem sempre o principal risco está apenas na complexidade do procedimento ou na gravidade da doença. Um fator silencioso pode influenciar diretamente a recuperação: chegar à operação com pouca reserva nutricional e muscular.
A cirurgiã do aparelho digestivo Andréa Furlan alerta que desnutrição e sarcopenia — perda progressiva de massa e força muscular — podem estar presentes mesmo quando o paciente não parece “magro”. “Uma pessoa pode ter peso aparentemente normal e, ainda assim, ter pouca reserva muscular para enfrentar uma operação”, afirma.
Em cirurgias de maior porte, esse quadro tende a ser mais comum em pessoas com câncer, doenças crônicas ou com histórico recente de queda no apetite e perda de peso. O problema é que, quando passa despercebido, o corpo entra no procedimento com menos capacidade de responder ao estresse cirúrgico.
Por que o músculo faz diferença na recuperação
Durante a cirurgia e no pós-operatório imediato, o organismo enfrenta um período de grande exigência: aumenta a resposta inflamatória e o gasto de energia, acelerando o consumo das reservas do corpo. Nessa etapa, o músculo não é importante apenas para mobilidade.
“O músculo é essencial para cicatrizar, combater infecções, respirar melhor e conseguir levantar da cama”, explica Andréa Furlan. Quando o paciente já chega fragilizado, a chance de complicações cresce.
Estudos que avaliaram pacientes submetidos a cirurgias digestivas associam a sarcopenia a maior risco de complicações graves, tempo de internação prolongado, maior chance de readmissão hospitalar e piores desfechos gerais.

O que pode ser feito antes da cirurgia
A boa notícia é que parte desse risco pode ser identificada e reduzida antes do procedimento. A avaliação pré-operatória pode incluir perguntas e sinais objetivos, como perda de peso recente, redução do apetite e indícios de perda muscular.
Para quem apresenta desnutrição ou alto risco nutricional, a otimização antes da cirurgia pode mudar o resultado do pós-operatório. “Chegar bem à cirurgia faz parte do tratamento”, destaca a médica.
Também ganha espaço o conceito de pré-habilitação: um preparo pré-operatório que combina orientação nutricional, exercícios físicos e suporte psicológico. Pesquisas indicam que essa estratégia pode reduzir complicações e favorecer uma recuperação funcional melhor após a operação.
Entre as perguntas que o paciente pode levar à consulta estão: “Como está meu estado nutricional?”, “Perdi músculo?” e “Preciso me preparar com alimentação ou exercícios?”. Segundo a especialista, esse
tipo de conversa ajuda a transformar o período anterior ao procedimento em uma etapa ativa do cuidado.


