Dor persistente no pé ou no tornozelo, que surge de forma gradual e piora durante caminhadas ou corrida, é um sintoma comum e frequentemente subestimado. Muita gente segue treinando, acreditando ser apenas fadiga muscular, mas o quadro pode indicar uma fratura por estresse, uma lesão no osso causada por carga repetitiva sem recuperação adequada.
Diferentemente de uma fratura por queda ou pancada, a fratura por estresse tende a se formar aos poucos. “Pequenas microfissuras surgem no osso quando ele é submetido a esforço repetido além da sua capacidade de adaptação”, explica a ortopedista Dra. Marina Melhado, destacando que isso pode acontecer em atividades como corrida, caminhada prolongada, dança e esportes de impacto.
Por que a lesão aparece
O osso é um tecido vivo e responde às exigências do corpo. “Quando há equilíbrio entre estímulo e descanso, ele se fortalece”, afirma a médica. O problema surge quando volume ou intensidade aumentam rápido demais, sem tempo para o organismo se recuperar.
Entre os fatores que favorecem o problema estão mudança brusca na rotina de treino, calçados inadequados, alterações na forma de pisar, treinos em superfície rígida e falta de fortalecimento muscular. Algumas condições de saúde também elevam o risco, como osteopenia, osteoporose, deficiência de vitamina D e baixo consumo de cálcio, especialmente em mulheres e em pessoas acima dos 40 anos.
Nos pés e tornozelos, as áreas mais atingidas costumam ser ossos que absorvem grande parte do impacto, como metatarso, calcâneo e a porção distal da tíbia.
Sinais que não devem ser ignorados
O sintoma mais típico é a dor localizada que aumenta com a atividade e melhora com repouso no começo. Com a continuidade do esforço, a dor pode permanecer mesmo em descanso, além de surgir sensibilidade ao toque e, em alguns casos, inchaço.
Um alerta importante, segundo a especialista, é quando o incômodo fica “pontual em um ponto específico do osso”, diferente daquela dor muscular espalhada. Insistir nos treinos pode agravar o quadro: “Ignorar esses sinais e manter a atividade pode levar à progressão da lesão, transformando uma fratura incompleta em uma fratura completa”, diz a médica, com risco de afastamento prolongado e até necessidade de cirurgia em situações mais graves.

Diagnóstico, tratamento e como prevenir
Para evitar complicações, o diagnóstico precoce faz diferença. Nas fases iniciais, a ressonância magnética costuma identificar melhor o problema do que o raio-x, que pode não mostrar alterações nas primeiras semanas. A avaliação com ortopedista com foco em pé e tornozelo ajuda a confirmar a lesão e orientar conduta.
Na maioria dos casos, o tratamento é conservador e inclui reduzir ou suspender atividades de impacto, ajustar a carga, usar calçados adequados e, quando necessário, imobilização temporária. Também é parte da recuperação corrigir fatores associados, como deficiência de vitamina D e desequilíbrios musculares.
Para prevenir, a recomendação é aumentar o treino de forma gradual, alternar atividades, fortalecer a musculatura e respeitar os sinais do corpo. Como reforça a médica, “dor persistente não deve ser normalizada”. Reconhecer cedo o problema é essencial para proteger os ossos e voltar às atividades com segurança.



