Dor no treino nem sempre é evolução: excesso pode causar lesões e piorar o desempenho

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O lema “no pain, no gain” se popularizou como sinônimo de disciplina, mas a dor não deveria ser tratada como um troféu. A fisioterapeuta Monica Schapiro alerta que, em muitos casos, o incômodo é um aviso de que o corpo está sendo levado além do limite. “Dor não é medalha. Muitas vezes, é alerta”, afirma.

Uma parte dessa confusão vem da dificuldade de diferenciar o desconforto esperado após o exercício de uma dor que sinaliza problema. Depois de treinos mais intensos ou de um estímulo novo, é comum surgir a chamada dor muscular tardia, relacionada a pequenas microlesões nas fibras que fazem parte do processo de adaptação.

O ponto de atenção, porém, é quando a dor deixa de ser passageira e passa a ser constante, piora com o tempo ou atrapalha movimentos e atividades do dia a dia. Nesses casos, insistir no treino pode aumentar o risco de lesões e prolongar a recuperação.

Quando o excesso vira risco

O treinamento físico funciona porque cria um estímulo que o organismo tenta compensar, ficando mais forte e resistente. Para isso acontecer, o descanso é parte do processo. Sem recuperação adequada, o corpo não “evolui”: ele entra em sobrecarga.

Essa condição é conhecida como overtraining e é descrita na literatura científica. Ela pode vir acompanhada de fadiga persistente, queda de rendimento, piora do sono, alterações de humor, maior vulnerabilidade a infecções e aumento do risco de lesões. Schapiro destaca que “o corpo não evolui pelo sofrimento, e sim pela adaptação equilibrada entre estímulo e recuperação”.

Do ponto de vista musculoesquelético, a carga excessiva pode desencadear problemas como tendinopatias, lesões musculares recorrentes e dores articulares. A especialista também chama atenção para a fáscia, tecido que ajuda a integrar e distribuir forças pelo corpo: sob estresse repetitivo e sem pausas, ela pode perder mobilidade e contribuir para dores persistentes.

Foto: Freepik.

Dor não é estratégia de performance

A cultura de associar intensidade extrema a comprometimento ainda pesa na forma como muita gente treina. Mas, na prática, ganhos de força e hipertrofia dependem de progressão adequada de carga, técnica correta, alimentação equilibrada e recuperação.

Sentir uma dor aguda durante o exercício é um sinal que não deve ser ignorado. “Dor localizada, pontual e limitante é sinal de que algo pode estar sendo feito de forma inadequada ou que o corpo atingiu um limite naquele momento”, explica Schapiro. Persistir, segundo ela, pode transformar um desconforto reversível em uma lesão estruturada.

Outro efeito possível do excesso é a exaustão constante, que pode repercutir no sistema nervoso e no equilíbrio emocional. Quando o treino deixa de ser uma ferramenta de saúde e passa a ser uma fonte frequente de sofrimento, a orientação é reavaliar a rotina.

Isso não significa abandonar desafios ou “treinar leve” o tempo todo. A recomendação é buscar um treinamento inteligente, compatível com limites individuais, histórico clínico e fase de vida. “O ganho real não está na dor, mas na consistência sustentável”, destaca a fisioterapeuta.

Para especialistas, a mensagem central é clara: ouvir o corpo não é fraqueza, e sim um sinal de cuidado e maturidade. Quando o treino respeita a lógica da adaptação e da recuperação, ele fortalece. Quando ignora esses sinais, pode cobrar um preço alto.

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