Em ambientes de alta pressão, virou rotina cortar horas de sono para dar conta de reuniões, relatórios e viagens. A estratégia, porém, tem efeito bumerangue. Estudos citados pela pesquisadora Lara Motta mostram que a privação crônica de sono reduz desempenho cognitivo, amplia erros de julgamento e mina decisões estratégicas.
“Dormir bem não é indulgência; é gestão biológica de alta performance”, afirma Motta, PhD em Ciências da Saúde e professora e pesquisadora em medicina biofotônica da Universidade Nove de Julho. Uma revisão em Sleep Medicine Reviews indica que dormir menos de seis horas por noite por períodos prolongados pode reduzir em até 40% a capacidade de foco e planejamento.
O efeito é palpável no dia a dia. “É como operar um fundo multimilionário com a tela parcialmente embaçada.” Segundo ela, “o cérebro privado de descanso trabalha, mas de forma reativa, com menos discernimento, paciência e visão de longo prazo”.
O ciclo perigoso da exaustão
Para manter o ritmo, muitos profissionais recorrem a estimulantes durante o dia e a ansiolíticos ou hipnóticos à noite. “O resultado é um ciclo de extremos: sedar para descansar, forçar para funcionar”, diz Motta. Esse padrão fragmenta o sono e impede que o cérebro atinja as fases profundas de recuperação.
A curto prazo, parece solução. A médio, desregula hormônios, acelera o envelhecimento e aumenta o risco de burnout, depressão e doenças cardiovasculares, pontua a pesquisadora. Organizações de saúde e sociedades do sono reforçam o alerta: cortar o descanso cobra um preço alto do corpo e da mente.
Sono como ativo estratégico
Durante o sono profundo, o cérebro limpa resíduos metabólicos, consolida memórias e reorganiza redes neurais ligadas à criatividade e ao pensamento estratégico. “Privar-se disso é operar no modo de curto prazo, reativo, impulsivo e propenso a erros”, afirma Motta.
Empresas de tecnologia e gestoras internacionais já incorporam programas de gestão de sono e exposição à luz natural nas rotinas de líderes e equipes. O objetivo é mensurar ganhos de produtividade, concentração e estabilidade emocional com uma variável muitas vezes negligenciada: o descanso.

Tecnologia e ciência a favor do sono
Motta destaca avanços em frentes não medicamentosas para tratar a insônia. “A luz, aplicada em comprimentos de onda específicos, estimula as mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia celular, e reprograma o sistema nervoso autônomo, reduzindo a tensão e restaurando o ritmo circadiano”, explica, ao se referir à fotobiomodulação, abordagem usada em clínicas especializadas.
Aliada à neurofisiologia, a técnica busca reequilibrar corpo e mente em quem vive exausto há anos. “É a ciência da luz aplicada ao descanso, e, portanto, ao desempenho”, resume.
No balanço final, a matemática é simples. “O cérebro humano precisa de sono tanto quanto de oxigênio: é durante a noite que se consolidam a memória, o aprendizado e a autorregulação emocional.” E isso se traduz em resultados. “Executivos que dormem bem não apenas pensam com mais clareza, envelhecem mais devagar, decidem melhor e erram menos.” Conclusão de Motta: “O descanso, portanto, não é um luxo. É o ativo invisível que sustenta todos os outros.”



