Endometriose pode levar 7 anos para ser diagnosticada e ameaçar a fertilidade

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Milhões de mulheres passam anos convivendo com cólicas incapacitantes e dores pélvicas sem saber que podem ter endometriose. A condição ainda demora, em média, cerca de sete anos para ser diagnosticada, um intervalo que pode custar caro: nesse período, as lesões podem avançar, a inflamação se mantém e o impacto vai além da dor, alcançando a saúde emocional, a rotina e o futuro reprodutivo.

Para o ginecologista Marcos Maia, o principal sinal de alerta é quando a menstruação deixa de ser apenas desconfortável e passa a limitar a vida. “Dor intensa nunca deveria ser encarada como algo normal”, afirma o médico. Segundo ele, precisar faltar ao trabalho, cancelar compromissos, deixar de estudar ou depender de analgésicos fortes todos os meses não deve ser tratado como parte inevitável do ciclo menstrual.

A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao que reveste o interior do útero cresce fora dele. Isso provoca um processo inflamatório crônico, que pode atingir diferentes regiões e gerar sintomas que variam de mulher para mulher.

Entre as queixas mais comuns estão:

  • · cólicas menstruais intensas;
  • · dor pélvica persistente;
  • · dor durante a relação sexual;
  • · dor para evacuar ou urinar durante o período menstrual;
  • · dificuldade para engravidar.

Mesmo com sinais frequentes, muitas pacientes demoram a procurar ajuda — ou não são investigadas de forma adequada — porque a dor ainda é banalizada. A ideia de que “cólica faz parte” contribui para que a doença avance silenciosamente.

Por que o atraso pode comprometer a chance de engravidar

Receber o diagnóstico não significa que a mulher seja estéril. A endometriose é uma causa importante de infertilidade, mas a gravidez pode acontecer, inclusive de forma espontânea, em muitos casos. O problema é que o tempo faz diferença para preservar a fertilidade e planejar a gestação com mais segurança.

De acordo com Maia, a inflamação provocada pela doença pode favorecer aderências nas trompas, comprometer a função dos ovários e dificultar o encontro entre óvulo e espermatozoide. Também podem surgir endometriomas — cistos nos ovários — que, em alguns casos, reduzem a reserva ovariana, que é a quantidade de óvulos disponíveis.

Quando a identificação é mais precoce, aumentam as possibilidades de controlar a progressão das lesões e de definir estratégias para proteger a saúde reprodutiva. “Quanto mais cedo a doença é diagnosticada, maiores são as oportunidades de preservar a fertilidade e planejar a gestação da forma mais adequada”, destaca o especialista.

Foto: Freepik.

Tratamento hoje depende do projeto de vida da paciente

A forma de tratar a endometriose mudou. Em vez de olhar apenas para a extensão das lesões, a decisão tem sido guiada principalmente pelos objetivos da mulher: ela quer engravidar em breve? O principal problema é a dor? Já teve filhos? Pretende ter no futuro?

Essas respostas orientam o caminho, que pode incluir controle clínico dos sintomas, cirurgia ou encaminhamento mais cedo para técnicas de reprodução assistida. Na prática, duas pacientes com quadros semelhantes podem receber condutas diferentes, porque as prioridades e o momento de vida não são iguais.

Cirurgia ajuda, mas nem sempre é a melhor saída

Outro ponto central é desfazer a ideia de que operar significa curar. A cirurgia pode ser uma ferramenta importante, mas precisa ter indicação bem definida e objetivos claros. Procedimentos repetidos nos ovários, por exemplo, podem comprometer a reserva ovariana.

O médico explica que a decisão cirúrgica deve considerar fatores como idade, intensidade da dor, localização das lesões, reserva ovariana e desejo reprodutivo. “Mais importante do que operar é indicar a cirurgia no momento certo”, alerta Maia.

No cenário atual, especialistas reforçam que existe tratamento — e que a pior decisão é se conformar com a dor ou acreditar que “não tem jeito”. Ouvir o próprio corpo e buscar avaliação diante de sintomas persistentes pode reduzir anos de sofrimento e fazer diferença tanto na qualidade de vida quanto no futuro reprodutivo.

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