A pianista Erika Ribeiro acaba de lançar o álbum Erika Ribeiro: Villa-Lobos, seu novo trabalho pela Gravadora Rocinante, em vinil e nas principais plataformas de streaming. O disco aprofunda a pesquisa autoral da artista sobre o repertório brasileiro, propondo uma escuta renovada da obra de Heitor Villa-Lobos, a partir de uma abordagem de grupo acentuadamente rítmica e entranhada nas raízes culturais do país.
Este é o segundo lançamento de Erika pela Rocinante e marca um momento de expansão em sua trajetória. Se no disco anterior, lançado em 2021, a pianista se dedicou a transcrições para piano solo de obras de Stravinsky, Hermeto Pascoal e Sofia Gubaidulina, agora o gesto autoral se amplia ao coletivo. “Este segundo disco parte da mesma ideia do primeiro, onde a postura autoral é o ponto de partida para minhas criações musicais dentro do repertório clássico. Entretanto aqui não estou mais transcrevendo, estou investigando a linguagem de Villa”, explica. “A pergunta primordial foi: o que está aqui que precisa vir à tona?”.
Diferente do trabalho solo e introspectivo que refletia o contexto pós-pandemia, Erika Ribeiro: Villa-Lobos nasce do encontro. A pianista divide a criação com Reinaldo Boaventura, Marcelo Galter, Ldson Galter e Natália Mitre, formando um grupo que incorpora uma instrumentação pouco convencional: piano acústico, wurlitzer, contrabaixo, marimba, berimbau e percussões diversas como, por exemplo, enxadas. “A autoria aqui é coletiva, mas a inquietação é a mesma: como olhar para esse repertório estabelecido de uma forma nova, verdadeira, brasileira?”, afirma. Erika também assina a direção artística ao lado do músico, poeta e produtor Sylvio Fraga.
A escolha dos instrumentos não partiu de um desejo de ruptura gratuita, mas de um processo de escuta profunda. “Foi planejado no conceito, mas totalmente aberto na execução”, conta Erika. “Queríamos investigar a rítmica presente na escrita de Villa-Lobos e reforçar o sotaque original de suas origens. Os instrumentos surgiram porque faziam sentido sonoro, porque já estavam ali, nessa memória musical que queríamos honrar.”

A partir dessa ideia foi escolhido um repertório que direcionasse a escuta para uma abordagem contemporânea da música de Heitor Villa-Lobos — em obras menos exploradas, como New York Skyline e Feijoada sem Perigo, esta última somente
gravada apenas uma vez; peças que possuíam instrumentação clássica — como Choros n. 3 e Concerto para violão e pequena orquestra; e jóias do piano brasileiro como Alma Brasileira e Bachianas n. 4. O resultado revela um Villa-Lobos moderno e pulsante, convidando o público a redescobrir sua música sob nova perspectiva.
Grande parte dos arranjos é assinada por Marcelo Galter, maestro, compositor e produtor do disco, cuja trajetória musical, distinta da de Erika, foi decisiva para o resultado final. “Não foi uma pessoa impondo uma visão sobre a obra e sim uma pesquisa conjunta”, explica a pianista. “O trabalho era quase de escavação: o que a tradição escondeu que pode ser revelado?”
Ao longo do álbum, Erika alterna entre o piano acústico e o wurlitzer, instrumento que passou a integrar definitivamente sua paleta sonora. “Foi amor à primeira vista”, confessa. “Cada timbre responde a algo que já está latente na partitura de Villa-Lobos. A gente não inventou nada; ampliamos significados a partir do que ele já sugeria.”
A presença intensa da percussão e do gesto físico atravessa todo o disco, evidenciando o diálogo entre corpo e som. “A percussão torna o gesto visível, e isso volta para o piano de uma forma nova. Quanto mais tocávamos juntos, mais eu entendia que meu corpo também precisava dançar, pulsar”, diz Erika.
Quando questionada sobre o significado do álbum, a pianista é direta: “Comunhão. Este disco é sobre um encontro profundo entre pessoas, sons, tempos e raízes. Eu sozinha jamais teria chegado a esse resultado.”
Indicada ao Grammy Latino pelo álbum Erika Ribeiro: Sofia Gubaidúlina, Hermeto Pascoal e Ígor Stravinsky (Gravadora Rocinante, 2021), Erika Ribeiro construiu uma trajetória sólida e reconhecida no cenário musical. Vencedora de dez concursos nacionais, entre eles o III Concurso Nelson Freire, e premiada em mais de vinte competições, a pianista se apresenta regularmente nas principais salas de concerto do Brasil e no exterior. Doutora pela USP e professora da UNIRIO, Erika é reconhecida por transitar com naturalidade entre universos historicamente separados, como o erudito e o popular, construindo uma carreira marcada pela inquietude artística, pela pesquisa e pela constante reinvenção.
Sobre a expectativa em relação ao público, Erika prefere não impor roteiros. “Espero que as pessoas se permitam sentir. Que a escuta seja presente, sensorial, emocional. Villa-Lobos fala direto à alma e cada um vai encontrar na música aquilo que precisa encontrar.”



