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Especial: O Brasil que cabe dentro de uma canção

O Brasil é grande e plural demais para caber em uma definição só. Mas, curiosamente, cabe – inteiro, contraditório, múltiplo – dentro da canção brasileira. Dentro de muitas canções brasileiras.

Isso porque a música brasileira nunca falou de um único Brasil. Ela sempre cantou osdiversos“Brasis”, com suas belezas e paisagens estonteantes, seus sotaques carregados de história, suas dores profundas e suas desigualdades dilacerantes. E, muitas vezes, foi justamente o contraste entre tanta beleza e tanta dor, entre tanta diversidade, que permitiu que esse país continuasse sendo dito em cada canção.

Talvez por isso a nossa música tenha se tornado, ao longo do tempo, uma espécie de mapa sensível do país. Um mapa que não se orienta por linhas retas, mas por afetos, sotaques, paisagens sonoras, realidades distintas e modos distintos de existir. 

Cada compositor, cada intérprete, cada instrumentista, cada região vai desenhando um Brasil próprio, que não anula o outro, apenas amplia o retrato. Um retrato feito de contrastes evidentes: riqueza e escassez, festa e falta, exuberância e abandono, seca e enchente, frio e calor, paz e caos. A música brasileira nunca tentou esconder essas fraturas. Ao contrário: aprendeu a dizê-las com verdade, para – quem sabe – entender quem é o Brasil.

O Nordeste que vive nas canções de Luiz Gonzaga não é o mesmo que aparece nas composições de Djavan, nem aquele que ecoa na poesia urbana de Belchior

Gonzagão constrói o sertão a partir da seca, da saudade e da resistência – denunciando uma desigualdade que atravessa gerações – mas também afirmando a dignidade de quem permanece, canta e inventa modos de viver. Como se beleza fosse também pertencer. E criar novos ritmos, gêneros, formas de dizer.

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião | Foto: Divulgação.

Djavan canta sua Alagoas com sofisticação e complexidade harmônica, além de originalidade rítmica, ampliando o vocabulário da canção brasileira e a colocando em contato com o mundo.

Djavan | Foto: Divulgação

Belchior transforma o Ceará em ponto de partida para um Brasil inquieto, jovem, deslocado, que percebe cedo as contradições sociais e existenciais do país. Três Nordestes distintos, todos eles verdadeiros.

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Belchior | Imagem: Reprodução

No Sudeste, a pluralidade também se impõe, quase sempre marcada por abismos visíveis. O Rio de Janeiro de Cartola e Nelson Cavaquinho nasce dos morros, das ausências, das dores íntimas – canções criadas em territórios historicamente marginalizados, mas capazes de alcançar o mundo com beleza e profundidade. E levar o samba para o topo do que é ser brasileiro.

Nelson Cavaquinho e Cartola | Imagem: Marcel Gautherot

Dona Ivone Lara revela um Rio de Janeiro que canta a partir da ancestralidade, do território, da comunidade, do feminino e de uma resistência quase que silenciosa, se não fosse pelo samba que – por ser mulher – quase não lhe foi dado o direito de fazer.

Dona Ivone Lara | Imagem: Reprodução

Enquanto isso, o Rio de Jorge Ben Jor também pulsa em ritmo solar, misturando samba, rock, soul e inventividade, afirmando a força criativa da cidade maravilhosa. 

Jorge Ben Jor | Imagem: Reprodução

Em São Paulo, Adoniran Barbosa canta a cidade dos operários, dos imigrantes, da fala viva e cheia de humanidade. Décadas depois, Criolo e Emicida escancaram outras periferias, outros centros, outras urgências, revelando desigualdades profundas, mas também beleza, inteligência e potência. A música, aqui, não suaviza a realidade: ela a joga luz.

Adoniran Barbosa | Foto: Divulgação.
Criolo e Emicida | Imagem: Divulgação/Enio Cesar

Além deles, Rita Lee – a eterna “Santa Rita de Sampa” – inaugura uma outra São Paulo possível: mais irreverente, feminina, urbana, debochada e libertária, onde romper padrões também se torna um gesto político. E de amor pela cidade.

Rita Lee / Imagem: Divulgação

Minas Gerais, tantas vezes tratada como estado de espírito, também se revela múltipla na música brasileira. O Clube da Esquina transforma o interior em universal, criando canções que falam de amizade, natureza e silêncio, quase como um gesto de cuidado em um país marcado por tantos ruídos. 

Fernando Brant, Lo Borges, Márcio Borges e Milton Nascimento, integrantes do Clube da Esquina | Imagem: Reprodução

Milton Nascimento – o carioca mais mineiro que existe – amplia essa Minas para o mundo, misturando referências latino-americanas e uma reflexão profunda sobre a humanidade, olhando para as diferenças que nos destacam e também assolam. Ao mesmo tempo, artistas como Skank pegam essas influências todas e mostram uma Minas urbana, pop e cosmopolita, conectada a mais outras infinitas sonoridades. 

Milton Nascimento | Foto: Divulgação.
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A banda mineira Skank | Imagem: Reprodução

No Sul, a música de Lupicínio Rodrigues expõe um Brasil emocionalmente intenso, onde a dor de amor também conversa com frustrações e limites impostos pela realidade da vida. Já a gaúcha Elis Reginacom sua voz e interpretação que atravessam gêneros, regiões e estados de espírito, canta como uma intérprete que revela o Brasil dos outros. Tomando também – com urgência – cada canção para si própria.

Lupicínio Rodrigues | Foto: Divulgação
Elis Regina | Foto: Divulgação

Elis, como tantos outros intérpretes, empresta a sua voz para histórias alheias, muitas vezes coletivas. Intérpretes são pontes entre os compositores e o país inteiro. Artistas brasileiros são um corpo político em cena: revelando a urgência de um Brasil que não cabe apenas na palavra escrita. Mas em como ela é dita, cantada.

A música brasileira nos lembra ainda que, mesmo dentro de uma mesma região, as realidades nunca são homogêneas. O samba do subúrbio carioca não é o mesmo da zona sul. A Bahia beira-mar de Dorival Caymmi não é a mesma Bahia afro punk de BaianaSystem. Mas, ao mesmo tempo, é.

Dorival Caymmi | Foto: Reprodução
BaianaSystem | Foto: Divulgação

A São Paulo experimental de Arrigo Barnabé não é a mesma da canção de denúncia social de Mano Brown. Mas, ao mesmo tempo, é. Mas, ao mesmo tempo, é.

Arrigo Barnabé | Imagem: Reprodução
Mano Brown | Imagem: Reprodução

São contrastes que revelam desigualdades, mas também uma riqueza cultural rara, onde diferentes narrativas finalmente encontram espaço para existir e ser ouvidas.

Talvez seja por isso que, em momentos de confusão ou desalento, voltamos à música brasileira como quem volta para casa. Não para encontrar um país idealizado, mas para reconhecer sua complexidade. A canção não organiza o Brasil, mas o sustenta. Não resolve suas desigualdades, mas oferece escuta, linguagem, memória e afeto para atravessá-las.

No fim, o Brasil que cabe dentro de uma canção não é um retrato fixo. É um país que – geração após geração – mesmo ferido, insiste em cantar. Que transforma dor em melodia, ausência em palavra, desigualdade em consciência. 

Enquanto houver Brasil, haverá canção. Enquanto houver canção, haverá Brasil.

“Brasis”.

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