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Especial: Renato Russo e o tempo

O tempo sempre foi um dos grandes personagens das canções de Renato Russo. Mais do que escrever sobre amor, sociedade ou política e relações humanas, o artista compunha sobre algo que atravessa todas essas coisas: a passagem do tempo. Suas músicas falam sobre crescer, mudar, lembrar, perder, amadurecer, seguir em frente. Sobre saudade, presente, passado, futuro. Falam, no fundo, sobre a vida acontecendo.

Desde muito jovem, Renato Russo – que no dia de hoje completaria 66 anos se não tivesse nos deixado precocemente aos 36 anos, em 1996, vítima da AIDS – já parecia ter uma consciência rara sobre o tempo. 

Ainda nos primeiros discos da Legião Urbana – uma das maiores bandas de rock brasileiras de todos os tempos, da qual Renato foi vocalista e letrista por 14 anos e teve como companheiros Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá – suas letras já carregavam uma certa nostalgia, uma sensação de que tudo passava rápido demais, de que era preciso viver antes que fosse tarde. 

Não por acaso, uma de suas canções mais marcantes é “Tempo Perdido”, que até hoje soa como um manifesto sobre juventude, escolhas e a sensação de que estamos sempre tentando entender o que fazer com o tempo que temos.

“Todos os dias quando acordo

Não tenho mais o tempo que passou

Mas tenho muito tempo

Temos todo o tempo do mundo

Todos os dias

Antes de dormir

Lembro e esqueço como foi o dia

Sempre em frente

Não temos tempo a perder”

“Tempo Perdido” faz parte do segundo álbum da Legião Urbana, “Dois”, de 1986, que também traz a canção não tão conhecida “Acrilic on Canvas”, que fala sobre memória, sobre saudade de algo que se viveu e do que não se pode voltar atrás.

Mas antes disso ainda, no álbumde estreia da banda, o letrista já se apresentou “Ainda é Cedo” que o título e o refrão por si só já refletem sobre a relação com o tempo – além de cantar sobre o futuro em “Geração Coca Cola” e sobre a passagem do tempo e as mudanças que isso provoca no hit “Por Enquanto”.

“Vamos fazer nosso dever de casa

E aí­ então, vocês vão ver

Suas crianças derrubando reis

Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução

Somos burgueses sem religião

Somos o futuro da nação

Geração Coca-Cola

Geração Coca-Cola”

“Mudaram as estações

E nada mudou

Mas eu sei

Que alguma coisa aconteceu

Está tudo assim tão diferente

Se lembra quando a gente

Chegou um dia a acreditar

Que tudo era pra sempre

Sem saber

Que o pra sempre

Sempre acaba

Mas nada vai

Conseguir mudar o que ficou

Quando penso em alguém

Só penso em você

E aí então estamos bem”

Ao longo dos anos, o tempo passou a aparecer de outras diversas formas nas canções de Renato Russo. O mais impressionante é que o artista escreveu sobre todas as fases da vida antes mesmo de chegar à velhice. 

Falou sobre ser jovem, sobre amadurecer, sobre olhar para trás, sobre perder pessoas, sobre amores que começam e terminam, sobre sonhos que mudam com o tempo, sobre uma sociedade em constante transformação, mas muitas vezes não em evolução. Muitas vezes em retrocesso, como é o caso de “Que País é Esse?”, do terceiro álbum da banda, que levou o nome da canção, em 1987.

“Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse?”

Neste mesmo disco, a canção “Depois do Começo” fala sobre o tempo como sendo cíclico, ou seja: todo fim é um começo. Todo começo já nos aproxima do fim:

“E depois do começo

O que vier vai começar a ser o fim

E depois do começo

O que vier vai começar a ser o fim”

Suas músicas parecem acompanhar a vida inteira de quem ouve – e talvez seja por isso que tantas gerações continuam se identificando com as letras de Renato Russo.

Em canções como “Há Tempos”, do quarto álbum da banda – “As Quatro Estações”, de 1989 –  o tempo aparece como algo que transforma as pessoas, que muda os caminhos, que encerra ciclos e abre outros. Há nessas músicas uma sensação agridoce de quem entende que a vida não acontece exatamente como imaginamos, mas ainda assim continua seguindo.

“E há tempos nem os santos

Têm ao certo a medida da maldade

E há tempos são os jovens que adoecem

E há tempos o encanto está ausente

E há ferrugem nos sorrisos

Só o acaso estende os braços

A quem procura abrigo e proteção”

Aliás, o próprio título do disco já é sobre a passagem do tempo, sobre ciclos, sobre as quatro estações do ano. Outra música que traz o tempo como protagonista neste álbum é “Pais E Filhos”, aqui, trazendo uma questão geracional, de uma diferença de tempo e espaço que parece fazer as gerações não se entenderem, não se encontrarem:

É preciso amar
As pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade, não há

Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não o entendem
Mas você não entende seus pais

Você culpa seus pais por tudo
Isso é um absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?”

Neste mesmo álbum, Renato Russo traz o tempo também como cura para a dor, na canção “Quando o Sol Bater na Janela do seu Quarto”:

“Quando o Sol bater
Na janela do teu quarto
Lembra e vê
Que o caminho é um só

Até bem pouco tempo atrás
Poderíamos mudar o mundo
Quem roubou nossa coragem?

Tudo é dor
E toda dor vem do desejo
De não sentirmos dor

Quando o Sol bater
Na janela do teu quarto
Lembra e vê
Que o caminho é um só”

Ainda neste álbum, Renato fala mais uma vez com desesperança sobre o futuro e sobre a contradição de não evoluirmos como sociedade com o passar do tempo, na canção “1965 (Duas Tribos)”, em que diz ironicamente que “O Brasil é o País do Futuro”.

O poeta fala também sobre a pressa de quem ama, na canção “Sete Cidades”:

Em outros momentos, o tempo aparece como saudade nas canções de Renato Russo. Como memória de algo que ficou para trás. Como amor que não existe mais, mas que de alguma forma continua presente.  Isso aparece de forma muito forte em “Vento no Litoral”, uma das canções mais melancólicas de sua obra, do quinto álbum da banda, “V“, de 1991.

“Agimos certo sem querer

Foi só o tempo que errou

Vai ser difícil eu sem você

Porque você está comigo o tempo todo

E quando vejo o mar

Existe algo que diz

Que a vida continua e se entregar é uma bobagem”

A passagem do tempo também aparece forte em um dos maiores sucessos da banda, que está também no quinto álbum: “Teatro dos Vampiros”:

“Voltamos a viver como há dez anos atrás

E a cada hora que passa, envelhecemos dez semanas”

E mais passagem do tempo, aprendizagem e maturidade – dessa vez contada em 29 dias, meses, anos – é cantada por Renato Russo na música “Vinte e Nove”, do álbum “O Descobrimento do Brasil”, de 1993:

“Passei vinte e nove meses num navio

E vinte e nove dias na prisão

E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno

Decidi começar a viver”

No mesmo álbum,  na canção “Love in The Afternoon”, ele canta sobre a brevidade da vida, sobre a morte precoce, já com o diagnóstico de ser HIV positivo (embora em segredo) e sabendo que provavelmente iria embora cedo também:

“É tão estranho

Os bons morrem jovens

Assim parece ser

Quando me lembro de você

Que acabou indo embora

Cedo demais”

E também no álbum de 1993, Renato fala sobre respeitar o tempo e viver um dia de cada vez, na canção “Só Por Hoje”:

“Hoje eu já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez

Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte quatro horas
Quase joguei a minha vida inteira fora”

Em 1996, a banda lançou “A Tempestade” ou o “Livro dos Dias”, o último álbum da Legião Urbana publicado com Renato Russo em vida. O disco é marcado por canções mais introspectivas e as letras abordam temas como solidão, passado, amor, depressão, soropositividade, intolerância e injustiça, trazendo bastante tristeza para as interpretações. 

Em “A Via Láctea”, Renato fala sobre a sua relação com o HIV, como uma autobiografia.  Nela, o tempo passa a ser também finitude, despedida e consciência de que tudo é passageiro.

“É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto isso passa
Amanhã é um outro dia, não é?”

Renato Russo faleceu em outubro de 1996, 21 dias após o lançamento do disco, de doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária, todas consequências da AIDS. 

No fundo, o poeta escreveu sobre aquilo que todo mundo sente, mas nem sempre sabe explicar: a sensação de que a vida passa rápido, de que as pessoas mudam, de que o mundo muda, de que nós mudamos. E de que, enquanto tudo isso acontece, estamos apenas tentando entender o que fazer com o tempo que temos.

Talvez por isso suas músicas nunca envelheçam. Porque elas falam justamente sobre isso: sobre o tempo, que passa para todos nós, o tempo todo.

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