Uma pesquisa multicêntrica realizada no Brasil trouxe novos sinais de avanço no tratamento do glaucoma, doença que está entre as principais causas de cegueira irreversível no mundo e costuma evoluir de forma silenciosa.
A oftalmologista Regina Cele explica que em muitos casos o problema só é percebido quando já há perda importante do campo visual, o que reforça a necessidade de diagnóstico precoce e acompanhamento regular.
O glaucoma é, em geral, uma doença crônica ligada ao aumento da pressão intraocular. Essa pressão elevada pode danificar progressivamente o nervo óptico, estrutura que leva as informações visuais do olho ao cérebro. “O maior risco é justamente a progressão sem sintomas nas fases iniciais, o que faz muita gente conviver com a doença sem saber”, alerta Regina Cele.
Embora frequentemente tratado como um único problema, o glaucoma reúne diferentes tipos, como o de ângulo aberto, o de ângulo fechado, formas secundárias (associadas a outras doenças), congênitas e casos refratários, que respondem mal às abordagens convencionais. Por isso, o tratamento costuma ser individualizado.
Em geral, a primeira linha envolve colírios para reduzir a pressão do olho. O desafio é que eles exigem uso contínuo e disciplina rigorosa, além de poderem causar desconfortos como ardor, irritação e vermelhidão. Quando os colírios não bastam, entram opções como procedimentos a laser e, em situações mais avançadas, cirurgias como trabeculectomia ou implantes de drenagem, abordagens eficazes, mas mais invasivas e com maior risco de complicações em alguns perfis de pacientes.

Como funciona o laser por micropulso
Nesse cenário, ganha espaço uma técnica mais recente chamada ciclofotocoagulação transescleral por micropulso (MP-TSCPC). O método usa laser aplicado externamente ao olho para atuar no corpo ciliar, estrutura responsável pela produção do humor aquoso, o líquido que influencia a pressão intraocular.
O diferencial está na forma de entrega da energia: em vez de um feixe contínuo, o laser é aplicado em micropulsos, de maneira intermitente, permitindo períodos de “descanso” do tecido entre as emissões. “A lógica do micropulso é reduzir a chance de dano excessivo às estruturas oculares, o que melhora o perfil de segurança quando comparado a técnicas mais antigas”, explica a oftalmologista.
Na prática, o procedimento busca diminuir a produção do líquido intraocular, ajudando a reduzir a pressão dentro do olho sem incisões ou implantes.
Queda de pressão e menos colírios
De acordo com os resultados observados no estudo brasileiro, houve redução média de aproximadamente 45% na pressão intraocular após o tratamento com MP-TSCPC, um dado considerado
relevante porque controlar a pressão é o principal fator associado à desaceleração da progressão do glaucoma.
Outro achado importante foi a diminuição no número de colírios usados após o procedimento. Para muitos pacientes, especialmente idosos ou pessoas com rotinas complexas, manter múltiplas aplicações diárias ao longo dos anos pode ser um obstáculo. “Reduzir a dependência de colírios pode impactar diretamente a qualidade de vida e a adesão ao tratamento”, destaca a especialista.
O trabalho também apontou que a redução de pressão se manteve ao longo do acompanhamento e apareceu em diferentes grupos de pacientes, incluindo pessoas com tipos distintos de glaucoma e com histórico de tratamentos prévios.
Segurança e ampliação de indicações
Historicamente, procedimentos voltados ao corpo ciliar eram mais reservados a casos com visão muito comprometida, devido ao risco de complicações. Com o micropulso, porém, o estudo observou baixo índice de eventos adversos, com estabilidade da visão na maioria dos pacientes e raridade de complicações graves.
Com isso, a MP-TSCPC passa a ser considerada não apenas em glaucomas avançados ou refratários, mas também como uma alternativa intermediária entre o tratamento apenas com medicamentos e cirurgias mais invasivas, desde que bem indicada.
De acordo com a oftalmologista, o avanço representa mais uma ferramenta para preservar a visão e ampliar as possibilidades de manejo da doença, especialmente diante de um problema que ainda é subdiagnosticado e pode evoluir sem sinais evidentes.


