Meninas engravidando cada vez mais cedo, algumas com apenas 11 ou 12 anos, têm preocupado médicos e especialistas em saúde. Para a ginecologista Ana Horovitz, tratar esses episódios como casos isolados ou reduzi-los a um debate moral impede o enfrentamento de um problema com impacto amplo. “Estamos diante de um problema de saúde pública, com repercussões físicas, emocionais, educacionais e sociais profundas”, afirma.
Na avaliação da médica, conversar sobre prevenção na adolescência não significa estimular a sexualidade precoce, mas encarar uma realidade já existente com responsabilidade. “Falar sobre anticoncepção na adolescência não significa antecipar etapas da vida nem estimular comportamentos. Significa reconhecer uma realidade que já existe e oferecer proteção concreta a quem está em situação de vulnerabilidade”, diz. E resume: “O silêncio, ao contrário do que muitos imaginam, não preserva — expõe.”
Riscos vão além do parto
A gravidez em idade muito precoce traz riscos importantes à saúde porque o corpo ainda está em desenvolvimento. Segundo Horovitz, isso aumenta as chances de complicações como anemia, hipertensão durante a gestação, parto prematuro e baixo peso do bebê.
As consequências, porém, podem ir muito além do aspecto físico. A médica aponta que a maternidade antes do tempo frequentemente se associa a abandono escolar, dependência econômica, sofrimento psicológico e isolamento social.
Ela também ressalta que, na maioria das vezes, essas gestações não ocorrem por uma decisão consciente. “Essas adolescentes, na maioria das vezes, não engravidam por escolha consciente. Muitas vivem contextos de desinformação, violência, abuso ou relações desiguais de poder”, afirma.
Informação não incentiva: protege
Um dos principais obstáculos, segundo a ginecologista, é a ideia de que orientar sobre métodos anticoncepcionais levaria ao início mais cedo da vida sexual. “Existe uma falsa ideia de que falar sobre métodos anticoncepcionais incentiva o início precoce da vida sexual”, diz. Para ela, a evidência científica vai na direção contrária: informação clara e adequada à idade tende a estar associada a início mais tardio da vida sexual e maior uso de proteção quando ela acontece.
O problema, explica, é que a falta de orientação não impede relacionamentos, mas aumenta o risco. “Quando adolescentes não recebem orientação, elas não deixam de se relacionar — apenas o fazem sem proteção, sem noção de riscos e sem saber onde buscar ajuda”, afirma. “Falar de anticoncepção é falar de responsabilidade, autocuidado e prevenção de consequências que podem marcar uma vida inteira.”

DIU e métodos de longa duração ganham espaço
Entre as alternativas disponíveis, a médica destaca os métodos de longa duração, como o DIU, que têm sido valorizados por diretrizes médicas por sua alta eficácia e por não dependerem de uso diário. Ela afirma que “as principais sociedades médicas reconhecem que o DIU pode ser utilizado por adolescentes, inclusive aquelas que ainda não tiveram filhos, desde que haja avaliação médica, indicação correta e acompanhamento”.
Horovitz lembra, no entanto, que não existe solução única. Pílulas, injetáveis, implantes e preservativos continuam tendo papel relevante, especialmente na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Para a médica, a escolha deve ser individualizada, levando em conta idade, contexto de vida e saúde física e emocional, com participação da família sempre que possível e de forma acolhedora.
Ao defender o tema como prioridade, a ginecologista conclui: “Falar de anticoncepção na adolescência não é abrir mão de valores, mas assumir uma postura ética e responsável diante de uma realidade urgente.”

