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Guilherme Arantes atravessa o tempo em “Interdimensional” e reafirma sua genialidade aos 50 anos de carreira

Há artistas que envelhecem junto com o mercado. Outros, raros, envelhecem contra ele, aprofundando linguagem, complexificando ideias e recusando atalhos fáceis. Guilherme Arantes pertence, definitivamente, ao segundo grupo. E “Interdimensional”, seu novo álbum de inéditas, que chega hoje nas plataformas, é prova viva disso.

O disco não apenas inaugura simbolicamente as comemorações dos 50 anos de carreira solo que Guilherme celebra em 2026, como também funciona como um espelho sofisticado de toda a sua trajetória artística. Um trabalho que olha para trás sem nostalgia paralisante, e aponta para frente sem concessões ao algoritmo, às fórmulas de mercado ou às modas passageiras.

Não é por acaso que Gal Costa costumava repetir, sempre que o nome dele surgia: “Guilherme é um gênio”. Segundo ela, tratava-se de um compositor capaz de criar uma música altamente sofisticada que, paradoxalmente, parecia simples — entrava no rádio, na novela e, sobretudo, na vida das pessoas. Essa definição ecoa com força em Interdimensional.

Parte essencial do conceito do álbum nasce justamente de um movimento pouco comum: Guilherme desloca o próprio olhar para compor pensando no outro. Canções escritas originalmente para intérpretes como Gal Costa, Alaíde Costa, Boca Livre e Claudette Soares retornam agora à sua voz, revelando novas camadas de sentido. É como se, ao traduzir outras personalidades, o compositor encontrasse versões inesperadas de si mesmo.

Esse diálogo com intérpretes atravessa o disco e ajuda a explicar sua diversidade estética. Em “A Vida Vale a Pena”, Guilherme coloca Tom Jobim e Stevie Wonder na mesma paisagem sonora, em parceria com Nelson Motta. “Minúcias”, com quase seis minutos de duração, cresce aos poucos até alcançar um lirismo épico e esperançoso. “Intergaláctica Missão” flerta com o rock setentista e com o cinema de Stanley Kubrick, enquanto “Enredo de Romance” carrega acento latino e solo do icônico Luiz Sérgio Carlini.

Capa de Interdimensional. Foto: Divulgação.

Há ainda momentos de pura síntese da identidade do artista: “Sob o Sol” reconecta o compositor à energia seminal do Moto Perpétuo; “O Espelho” mergulha com prazer na estética dos anos 1980; e a instrumental “50 Anos Luz” — que já anuncia o espírito da turnê comemorativa — bebe diretamente da fonte do rock progressivo que moldou sua formação.

Um dos pontos centrais do álbum é “O Prazer de Viver para Mim É Você”, canção que marca, segundo o próprio Guilherme, uma redescoberta profunda dos caminhos harmônicos do piano brasileiro. Tão decisiva que aparece em duas versões: uma cantada e outra instrumental, cinematográfica, que encerra o disco. Interdimensional é também o primeiro trabalho gravado em seu novo estúdio, em Ávila, na Espanha, selando o reencontro do artista com seu piano Steinway.

A decisão de preservar canções longas — algumas indo na contramão do padrão atual — é um gesto estético e político. Guilherme não quer compactar emoção nem pensamento para caber em playlists. Como ele mesmo afirma, o tempo das canções não precisa mais obedecer a ditames de mercado. A música, aqui, volta a respirar.

Produzido com extremo cuidado, o álbum reúne um time de músicos de excelência e arranjos de cordas assinados, em parte, por Jacques Morelenbaum, além do próprio Guilherme. Acompanhando de perto todo o processo, é impossível não perceber o entusiasmo quase juvenil do artista diante de cada nova melodia, de cada descoberta sonora — postura que talvez explique por que, cinco décadas depois, sua obra segue em expansão.

Guilherme Arantes. Foto: Leo Aversa.

Interdimensional dialoga com Chopin, Debussy, Tom Jobim, o samba-canção, a bossa nova e o pop brasileiro — não como colagem de referências, mas como síntese autoral. É o Brasil musical que Guilherme Arantes sempre carregou consigo: sofisticado, emocional, popular e profundo ao mesmo tempo.

Celebrar 50 anos de carreira com um álbum como esse não é olhar para o passado em busca de aplauso. É reafirmar um método artístico, uma ética da canção e a convicção de que a música ainda pode tudo. Como diria Gal: só um gênio faz parecer simples aquilo que é, na verdade, grandioso.

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