História da música “Asa Morena”
A cantora paulistana Zizi Possi já tinha lançado quatro discos quando atingiu o explosivo sucesso e projeção nacional com o disco “Asa Morena”, de 1982. Faixa-título e responsável pelo sucesso do álbum, hoje vamos conhecer a história da música “Asa Morena”.
Composta pelo cantor, violonista e compositor gaúcho Zé Caradípia, “Asa Morena” é considerada uma das 100 canções mais populares do século XX,fazendo com que Zizi conquistasse o seu primeiro Disco de Ouro.
Autor de mais de 300 canções,Zé Caradípia conta em um documentário especial sobre a música, gravado para o Youtube, que compôs a canção em setembro de 1980,na cidade de Viamão, no Rio Grande do Sul, onde morava com sua mãe e irmão.
O compositor – que na verdade chama-se José Luiz Fernandes e criou o nome artístico Zé Caradípia por conta da expressão muito usada na Região Sul do Brasil “Cara de Piá”, “Piá” quer dizer “criança”, e o artista mudou a acentuação do nome – estava assistindo um programa na TV com sua mãe, sobre o Rei do Baião, Luiz Gonzaga.
Logo, ele lembrou da música “Asa Branca”, sucesso de Gonzagão em parceria com Zé Dantas, lançado em 1950, e pensou: “Se tem uma ‘Asa Branca’, porque não criar uma ‘Asa Morena’?”
E assim ele foi escrevendo a música:
“Me faz pequena, Asa Morena””
Também muito inspirado por uma situação que viveu pouco tempo antes, quando ficou preso por um mês em uma prisão de estrangeiros no Paraguai, junto com outros dois amigos parceiros, e lá foi muito maltratado, apanhou, comeu muito mal e voltou muito fraco, com pneumonia.
Por isso, na música ele também cita “Me alivia a dor / Aliviando a dor que mata”.

Uma noite, depois de participar de um festival em Porto Alegre, Zé Caradípia foi a um restaurante com uns amigos e pediu para tocar um pouco de violão para as pessoas que ali estavam. Todos pararam tudo o que estavam fazendo para apreciar as belas canções do compositor.
Mal sabia ele, que – naquele restaurante – estavam produtores de diversas grandes gravadoras, como a RCA, a Continental e a Philips/Polygram. O produtor da Philips/Polygram, Armando Pittigliani, convidou então Zé Caradípia para ser contratado da gravadora.
Um ano depois, quando Zizi Possi estava escolhendo o repertório para o seu próximo disco, Armando Pittigliani mostrou uma fita para a cantora com músicas de diversos compositores, entre eles, Zé Caradípia, com a canção “Asa Morena”.
Zizi na hora se apaixonou pela canção e quis gravá-la como faixa-título e que abre seu disco de 1982.
A canção foi um sucesso absoluto e mudou, tanto a vida de Zizi Possi, como a vida de Zé Caradípia.
No documentário, o autor conta uma coisa interessante: que pouco antes, havia inscrito “Asa Morena”, junto com outras duas canções, no Festival do FECAVI, em Carazinho, no Rio Grande do Sul, e as outras duas músicas foram classificadas, mas “Asa Morena” não!
Gostou de saber a história da música “Asa Morena”? Se você quiser conhecer mais detalhes sobre a vida e a obra da aniversariante do dia, confira o Acervo MPB Zizi Possi, um episódio especial da nossa série exclusiva Novabrasil de áudio-biografias de grandes nomes da nossa música.
Sobre Zizi Possi
Dona de uma voz excepcional, com afinação impecável e dramaticidade intensa, a paulistana Zizi nasceu Maria Izildinha, descendente de italianos, no bairro do Brás, típico reduto de imigrantes vindos da Itália para o Brasil.
Zizi Possi teve formação erudita e – dos 5 aos 7 anos de idade – estudou piano e canto. Em 1973, antes mesmo de completar 18 anos,mudou-se para a Bahia com o irmão mais velho, José Possi Neto, de quem sempre foi muito próxima.
Hoje um aclamado diretor de teatro (inclusive dirigiu quase todos os espetáculos de Zizi Possi), iluminador, coreógrafo e figurinista, José havia sido convidado – na época – para dar aulas na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, da qual – depois – tornou-se diretor.
Na Bahia, Zizi estudou composição e regência na UFBA – considerada a melhor da América Latina na época – e trabalhou como professora em um projeto de reestruturação social e arquitetônica do Pelourinho.
Também trabalhou em várias peças teatrais e musicais, onde interpretava, cantava e compunha algumas das trilhas. Gravou jingles comerciais e participou de especiais da televisão local. Foi nas aulas de teatro que descobriu o seu imenso talento vocal.

Quando seu irmão deixou o Brasil para usufruir de uma bolsa de trabalho em Nova York, Zizi mudou-se para o Rio de Janeiro. Chegando lá, foi morar em um apartamento com outras sete meninas, em esquema de vaga. Alugou seu colchão e ficou por cerca de seis meses. No início, sobrevivia como backing vocal e fazendo traduções do italiano para o português.
Até que um dia, apareceu – debaixo da porta do apartamento em que morava – um bilhete do músico e produtor musical Roberto Menescal, então produtor da gravadora Philips. Zizi conta que olhou o bilhete e pensou: “Esse cara não é da bossa nova? Será que ele quer que eu também faça backing vocal para ele?”. Mas não. Menescal tinha visto o programa de Zizi na TV Aratu, da Bahia, e queria contratá-la para gravar um disco.
Em 1978, aos 22 anos, Zizi Possi lançou o seu primeiro álbum: “Flor do Mal”, tendo sua performance vocal muito elogiada. No seu segundo disco, “Pedaço de Mim“, destacou-se bastante a faixa-título – de Chico Buarque – que fez parte do seu espetáculo musical “A Ópera do Malandro“.
Em 1980, foi a vez do disco Zizi Possi, para o qual a cantora diz que viajou “do Oiapoque ao Chuí” colhendo repertório, e que ficou o disco que ela queria: “tudo na medida certa”. Em entrevista, a cantora declarou: “Este disco tem o meu nome, pois, se o anterior é “Pedaço de Mim” este sou eu por inteira”
Mas o explosivo sucesso e projeção nacional aconteceram mesmo no disco seguinte, de 1982, o quinto da carreira de Zizi Possi: “Asa Morena“, fazendo com que Zizi conquistasse o seu primeiro disco de ouro.
O trabalho seguinte, “Pra Sempre e Mais um Dia“, de 1983, deu prosseguimento à boa fase comercial da cantora. O álbum conta com algumas composições de Líber Gadelha, guitarrista e produtor musical que foi casado com Zizi e é pai de sua filha Luiza Possi, nascida em 1984 e – hoje – uma das maiores cantoras da MPB atual.
A partir daí, Zizi Possi emplacou um sucesso atrás do outro e consolidou-se como uma das maiores cantoras do Brasil. Premiadíssima, lançou 20 discos ao longo da carreira, entre eles os inesquecíveis “Sobre Todas as Coisas”, “Valsa Brasileira” e “Mais Simples“, e os ousados “Per Amore” e “Passione“, somente com canções em italiano.
Além das já citadas, entre as principais canções na voz da cantora e compositora, estão os sucessos:
- A Paz (de João Donato e Gilberto Gil);
- Perigo (de Nico Rezende e Paulinho Lima);
- Nunca (de Lupicínio Rodrigues);
- Luz e Mistério (Beto Guedes e Caetano Veloso);
- Caminhos de Sol (de Herman Torres e Salgado Maranhão);
- Engraçadinha (de Tite Lemos e Sérgio Saraceni);
- Viver, Amar, Valeu (que Gonzaguinha compôs especialmente para a sua voz);
- Toda Uma História (parceria de Zizi Possi com Luiz Avellar);
- Canção de Protesto (escrita por Caetano Veloso, exclusivamente paraela);
- Noite (de Nico Rezende e Jorge Salomão);
- Meu Erro (de Herbert Vianna);
- Per Amore (Mariella Nava);
- Passione (Libero Bovio, Ernesto Tagliaferri e Nicola Valente);
- Luiza (de Tom Jobim);
- Beatriz (de Edu Lobo e Chico Buarque);
- Canzone Per Te (de Sergio Endrigo e Sergio Bardotti);
- Mania (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos).
E viva, Zizi!