“Choraaaa, não vou ligar! Chegou a hora… vais me pagar!”. Eternizada na voz deBeth Carvalho, a música “Vou Festejar” é um dos maiores hinos do samba e revolucionou o gênero, quando lançada no álbum “De Pé no Chão”, de 1978.
Vamos conhecer a história por trás desse sucesso?
História da Música “Vou Festejar”
“Vou Festejar” foi composta pelos sambistas Jorge Aragão, Dida e Neoci, quando os três frequentavam e faziam parte da Ala de Compositores do tradicional Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro.
Nesta época, Beth Carvalho – já consagrada há anos como uma das maiores intérpretes de samba do Brasil – começou a frequentar a roda de samba do Cacique de Ramos e conheceu os músicos e suas composições.
“Eu cheguei em 1977 lá no Cacique de Ramos e fiquei encantada porque era um bando de compositor bom: Jorge Aragão, Almir Guineto, Sereno, Bira, Ubirany, Sombrinha, Neoci…” conta Beth Carvalho. A cantora começou a escutar as músicas daqueles compositores todos e uma delas era “Vou Festejar”.
Ela percebeu que toda vez que Jorge Aragão, Dida e Neoci tocavam e cantavam aquela música, o lugar “incendiava”, todo mundo amava e ninguém ficava parado. Era uma energia imensa, como a gente sabe bem que acontece até hoje quando toca “Vou Festejar” em qualquer lugar.
“Eu fiquei apaixonada, fiquei lá um ano curtindo aquela rapaziada, só eu e eles. Até que a ficha caiu. Eu falei: ‘Pera aí, eu vou gravar esses caras!’”.
O grande produtor musical Rildo Hora tinha sido o responsável pelos discos anteriores de Beth Carvalho e ia produzir também o seu próximo disco. Foi quando a cantora disse a ele que tinha conhecido uma rapaziada boa e que queria gravar uma música deles e com eles como músicos.
Rildo em um primeiro momento foi resistente à ideia, pois achava que os músicos podiam ser muito bons na roda de samba, mas eles nunca haviam ido para o estúdio gravar e tocar em estúdio é muito diferente. Acontece que Beth Carvalho sabe o que faz, não é à toa que ela é chamada de “Madrinha do Samba”.
Ela escutou aqueles músicos e sabia que eles dariam mais do que conta: que seriam um sucesso! Tanto é que Jorge Aragão se tornou quem se tornou depois disso! E – antes mesmo de ser artista solo – ele e outros músicos do Cacique de Ramos integraram um dos mais importantes grupos de samba da história: o “Fundo de Quintal”.
Beth garantiu que os músicos não só mandariam bem, como eles surpreenderiam Rildo Hora. E foi o que aconteceu! Antes de gravar a cantora sempre fazia o que ela chamava de “bate-bola”: antes de definir as músicas que entrariam para os seus discos, ela gravava umas 40 canções e fazia uma espécie de júri popular com pessoas comuns diversas para avaliarem as músicas dando notas de 1 a 5.
Rildo e Beth tiveram a ideia então de convidar os músicos do Cacique de Ramos para irem ao estúdio da gravadora RCA para tocarem neste “bate-bola”, da forma que eles fazia nas rodas de samba do bloco.
“O Rildo ficou fascinado”, conta Beth Carvalho. “Ele falou: Não, pera aí! Você tem razão! Pelo amor de Deus! Isso é um som novo, caramba! Vamos nessa!’”.
Eles decidiram então que os músicos tocariam não só na faixa “Vou Festejar”, composição deles, mas no disco “De Pé No Chão” – que seria lançado em 1978 – inteiro!
E o disco trouxe um som que acabou revolucionando a história do samba, porque nele foi introduzido um novo instrumento no samba: o banjo com afinação de cavaquinho, tocado pelo inesquecível sambista Almir Guineto, uma tradição oriunda do Cacique de Ramos.
Rildo Hora relata esses e outros motivos que fazem do disco uma revolução na história do samba: “Já o pandeiro do Bira é um pandeiro sinfônico, a maneira dele tocar não existe igual. Você pode botar 500 mil pandeiristas ele tem um jeito de tocar peculiar e especial. Além dp tantã do Sereno – queé outro grande músico veio de lá do Cacique e que está no Fundo de Quintal até hoje – e do repique do Ubirany, que é um instrumento que ele criou e também é inimitável, ninguém toca como ele.”.
Além disso, o gigante Jorge Aragão, que toca o violão de um modo invertido! O sambista analisa: “Que sorte da gente fazer isso, que sorte da Beth ir até o Cacique, que sorte o Rildo Hora também assimilar tudo isso e colocar do jeito que nós fazíamos e que nós queríamos que fosse feito. Que sorte esse caminho da música.”.
“Vou Festejar” foi uma reviravolta na carreira de Beth Carvalho no sentido de mudança de som, de instrumentação. Em entrevista, o jornalista musical Felipe Trotta analisa: “Nesse momento, aparece uma sonoridade nova para o samba, onde parecia que não tinha mais sonoridade nova, uma nova estética. De certa forma, o pessoal do Cacique de Ramos, alavancado pelo sucesso consolidado de Beth Carvalho, estrutura um nicho de mercado que passa a ser muito relevante e economicamente viável e fonograficamente viável nos durante 80.”.
Em uma semana de seu lançamento, “Vou Festejar” já estava estourada em todo o Brasil, foi um fenômeno, passou a tocar em todas as rádios.
Rildo Hora também analisa a letra da música, que apesar de ser super vingativa, uma vingança amorosa, as pessoas cantam como se fosse um festejo enorme: “’’Vou Festejar’ é perfeita, porque ela é como deve ser uma letra de música popular: ela não é elaborada com com grandes metáforas, mas é uma música simples, bacana, como são as marchinhas de Lamartine Babo e os sambas deAry Barroso.”.
Por falar em vingança, não é à toa que a música se tornou um grande hino também entre as torcidas de futebol! É um time festejando o sofrer o penar do outro. É uma alegria derivada do fracasso do outro. Para Jorge Aragão – que gravou a canção como intérprete em 1993, no seu álbum “Um Jorge” – “Vou Festejar” se encaixa muito mais em um jogo de futebol do que em uma briga de relacionamento amoroso.
Para Rildo hora, na história do samba, “Vou Festejar” representa a alegria e – por isso – está até hoje, tantos anos depois, incendiando os salões os bailes de carnaval. “As crianças estão cantando automaticamente, como quem canta ‘Parabéns para Você”, se alegra Jorge Aragão.



