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História de “As Forças da Natureza”, sucesso de Clara Nunes

Você sabia que um dos maiores sucessos da carreira da cantora Clara Nunes é a canção “As Forças da Natureza”. E você sabia que essa música foi composta pelo marido da cantora, o compositor e poeta carioca Paulo César Pinheiro em parceria com um dos melhores amigos de Clara, o sambista João Nogueira?

Clara Nunes e Paulo César Pinheiro se casaram em 1975 e ficaram juntos até o fim da vida da cantora, que faleceu inesperadamente em 1983, aos 40 anos. Vários dos grandes sucessos de Clara são de autoria de Paulo, como – além de “As Forças da Natureza” “Canto das Três Raças” e “Menino Deus” (ambas em parceria com Mauro Duarte).

João Nogueira e Clara Nunes foram muito amigos. Parceiros de samba, gravaram diversas músicas juntos e a cantora ganhou até uma estátua em sua homenagem no jardim do Clube do Samba, importante espaço dedicado ao gênero, fundado por João Nogueira.

Grandes parceiros, juntos, João Nogueira e Paulo César Pinheiro compuseram outras canções para homenagear Clara Nunes, tanto em vida – como “Guerreira“, que a cantora chegou a gravar e ter muito sucesso, e “Mineira” – quando após a sua partida, como “Um Ser de Luz” (também com Mauro Duarte).

História da música “As Forças da Natureza”

As Forças da Natureza” – parceria de Paulo César Pinheiro com João Nogueira – é a canção que dá título ao álbum que Clara Nunes lançou em 1977.

Sobre ela, Paulo César Pinheiro – que completa 77 anos (Clara faria 84 anos em 2026 e João Nogueira – que nos deixou no ano 2000, 85) conta em seu livro “Histórias das Minhas Canções”, de 2010:

“Dos meus poemas premonitórios o que mais me emociona e arrepia sempre é “As Forças da Natureza”. (…) Naquela época não se falava de meio ambiente como hoje. Sentia-se, todavia, os efeitos da mão do homem no planeta. 

Eu, neto de índia guarani, crescido entre o mar e as montanhas de Angra dos Reis, na tapera de minha avó, à luz de lampião de querosene e à brasa de fogão de lenha, sem banheiro ou bicas, bebendo água curvada no riacho e tomando banho de cachoeira, percebia claramente mudanças, com meu instinto ainda primitivo. 

Era perceptível, pra mim, o aquecimento global paulatino, a poluição do ar pelos gases das indústria pesadas, o mar imundo de esgotos e vazamentos químicos, os alimentos empesteados por inseticidas agrícolas carregados de veneno, geleiras derretendo em blocos do tamanho de cidades, os peixes com metal nas entranhas, terremotos maiores, furacões e tsunamis. Tudo isso me assustava. 

O homem urbano ligava pouco pra situação, mas eu já vislumbrava, contudo, a superpopulação mundial e a escassez de sustento. A Terra maltratada por décadas, devagar, reagia, só alertava, só avisava. João me procurou com um pedaço de melodia e palavras:

‘Quando o Sol

Se derramar em toda a sua essência

Desafiando o poder da ciência

Pra combater o mal…’

– Bonito! Em que você pensou? Qual é o tema?

– Não tenho a menor ideia, poeta. Isso veio desse jeito e eu não sei do que se trata.

– Parece meio apocalíptico.

– Parece o quê?

– Deixa pra lá, compadre. Prossegue o samba e deixa a letra comigo.

Ele fez a música inteira. Primorosa. Belíssima. Tive uma visão. Nitidamente enxerguei uma Terceira Guerra Mundial com catástrofes inimagináveis. Destruição e ruínas. Dois terços da humanidade desaparecendo. Fiquei aterrorizado com as imagens que, como slides, passavam por minha cabeça. 

Descortinava-se, porém, no fim, um renascimento esplendoroso. Uma reconstrução mágica e poderosa de matérias e espíritos. Um povo novo ressurgindo das cinzas, com a mente voltada pra arte e a cultura da ciência dos milagres. Uma nova era se abria como um roseiral virgem. Um milênio de paz reinava adiante. 

Quedei-me atônito tomado de assombro e susto. E a letra saiu, como que guiada por uma mão que não era a minha. Toda. De uma vez só. Em minutos. Até hoje me espanto de pensar no fato e me comovo. O pior é que de lá pra cá, grande parte da poesia já se concretizou.”.

E isso foi escrito por Pinheiro em 2010… Imagina o quanto mais não se concretizou hoje, em pleno 2026, quando o poeta completa 77 anos de vida.

O casal Paulo César Pinheiro e Clara Nunes | Imagem: Reprodução

Mais sobre Paulo César Pinheiro

Nascido no Rio de Janeiro, em 28 de abril de 1949, Paulo César Pinheiro é um dos mais produtivos compositores da música popular brasileira. Tem mais de mil composições gravadas (mas já compôs mais de duas mil!), feitas em parceria com diversos grandes nomes da MPB, como João Nogueira, Francis Hime, Tom Jobim, Ivan Lins, Edu Lobo, Toquinho e Baden Powell.

Paulo César Pinheiro tinha 14 anos quando fez a sua primeira composição: a canção “Viagem”, em parceria com João de Aquino. Quatro anos depois, começou a destacar-se como letrista, estabelecendo parcerias com Baden Powell, principalmente na voz de Elis Regina – como sua primeira canção registrada: “Lapinha”.

Depois disso, suas canções passaram a ser gravadas por vários outros grandes nomes da nossa música, como Simone, Elizeth Cardoso, MPB-4 e Clara Nunes.

Outros dos seus principais sucessos são os clássicos: “Espelho”, “Além do Espelho”, “Súplica” e “Poder da Criação” (todas em parceria com João Nogueira); “Leão do Norte” (com Lenine), “Tô Voltando” (comMaurício Tapajós) e “Vou Deitar e Rolar (Quaquaraquaquá)” (com Baden Powell).

Além disso, Paulo César Pinheiro tambémpossui discos lançados como cantor e intérprete e uma dezena de livros publicados, entre eles, este já citado, que conta histórias de 65 de suas músicas: “Histórias das Minhas Canções”, de 2010.

Em certo trecho do livro, Paulo diz: “Acontecem coisas estranhas comigo desde quando comecei a compor, ainda menino. Vejo pessoas, vultos, sombras. Escuto passos, palavras, cantos. (…) Minha poesia é cantada e citada como reza, filosofia, provérbio, em inúmeras religiões, seitas e rituais Brasil afora. E eu vou seguindo, hoje, mentalmente, mais serenizado.”

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