A inteligência artificial começa a integrar a rotina do centro cirúrgico ao fornecer respostas sobre o tumor enquanto a cirurgia ainda está em andamento. Segundo o neurocirurgião Dr. Cesar Cimonari de Almeida, uma nova geração de tecnologias consegue analisar o tecido tumoral em poucos minutos, disponibilizando informações que antes só eram conhecidas após o término do procedimento.
Na rotina de cirurgias oncológicas, principalmente as mais complexas, o tempo sempre foi um fator crítico. Por muitos anos, decisões importantes precisavam ser tomadas com dados limitados, já que nem sempre era possível confirmar ali, na hora, que tipo de lesão estava sendo operada ou qual era a extensão segura de remoção.
Com os novos sistemas, esse cenário começa a mudar: a análise do tecido pode ocorrer durante o ato cirúrgico, com apoio de modelos de reconhecimento de padrões treinados para identificar características associadas a diferentes tipos de tumor.
Decisão no momento certo pode mudar o resultado
Na prática, essas ferramentas combinam leitura digital de amostras de tecido e algoritmos capazes de apontar sinais que sugerem maior agressividade ou infiltração do tumor, além de áreas que podem ser preservadas. “A ideia é ampliar a informação disponível no momento mais decisivo da cirurgia”, explica Dr. Cesar Cimonari de Almeida.
Esse tipo de resposta rápida pode ajudar o cirurgião a calibrar a estratégia de remoção do tumor, buscando um equilíbrio delicado: retirar o máximo possível do tecido doente sem comprometer regiões fundamentais para funções como fala, movimento e memória.

Neurocirurgia está entre as áreas mais impactadas
O impacto tende a ser ainda maior quando a operação envolve o cérebro, onde variações de poucos milímetros podem significar a diferença entre uma recuperação adequada e uma sequela permanente. O especialista destaca que, nesse contexto, qualquer ganho de precisão pode ter efeito direto no resultado do paciente.
Estudos recentes publicados na revista Nature indicam que sistemas baseados em inteligência artificial já conseguem reconhecer padrões tumorais e sinais de infiltração a partir do tecido analisado durante o procedimento. A expectativa é que isso ajude a reduzir tanto o risco de deixar áreas relevantes do tumor quanto o de retirar tecido saudável em excesso.
Embora a adoção ainda esteja em expansão e concentrada em alguns centros, a avaliação é de que a tecnologia pode contribuir para melhores desfechos e, em alguns casos, diminuir a necessidade de novas cirurgias.
Ferramenta de apoio, não substituta do médico
Apesar do avanço, a inteligência artificial não elimina o papel do especialista. “Ela funciona como apoio à decisão, não como substituição do médico”, afirma Dr. Cesar Cimonari de Almeida.
Também existem obstáculos para que a novidade se torne mais comum, como custos, disponibilidade de equipamentos, necessidade de validação em larga escala e adaptação à rotina hospitalar.
Outro ponto importante é que a análise feita no centro cirúrgico não encerra o diagnóstico. O exame completo realizado posteriormente em laboratório continua sendo essencial para confirmar o resultado definitivo.
Mesmo assim, para médicos que lidam com tumores — especialmente os cerebrais — a leitura é clara: a inteligência artificial deixou de ser apenas promessa e começa a entregar algo valioso na medicina de precisão: mais informação, no momento exato em que ela pode mudar o rumo da cirurgia.


