Falar de Música Popular Brasileira sem mencionar Itamar Assumpção é ignorar uma das mentes mais brilhantes e subversivas que o país já produziu. Figura central da chamada “Vanguarda Paulista” nos anos 80, Itamar, carinhosamente conhecido como “O Nego Dito”, foi um artista que desafiou todas as etiquetas impostas pela indústria fonográfica. Sua música não era fácil, não era óbvia e, acima de tudo, não era submissa. Misturando o samba com o reggae, o rock, o funk e a poesia concreta, Itamar construiu uma obra que investigava as profundezas da experiência negra urbana, longe dos clichês do exotismo ou da tristeza conformada. Ele era a personificação da autonomia artística, preferindo o caminho da produção independente a se curvar aos ditames das grandes gravadoras que não sabiam como “vender” um artista negro tão intelectualizado e multifacetado.
A lírica de Itamar Assumpção é um capítulo à parte na nossa música. Com um humor ácido e uma precisão rítmica impecável, suas letras falavam sobre o cotidiano de São Paulo, o racismo velado, o amor e a própria arte de compor. Ele não apenas cantava; ele declamava e performava, utilizando o baixo elétrico como uma extensão de seu corpo. Ao lado da banda Isca de Polícia, Itamar criou uma sonoridade que era, ao mesmo tempo, ancestral e futurista. Ele entendia que a negritude na música brasileira não precisava estar restrita ao samba tradicional, embora bebesse dessa fonte com maestria. Para Itamar, ser um artista negro era ter o direito de ser experimental, de ser estranho, de ser vanguardista e de dialogar com qualquer gênero musical do planeta.
O legado de Itamar Assumpção vive hoje em uma nova geração de artistas negros que adotam a independência como filosofia de vida. Nomes como Metá Metá, Juçara Marçal e Luedji Luna carregam em seu DNA artístico a liberdade que Itamar defendeu até o fim de seus dias. Ele provou que era possível construir uma carreira sólida e respeitada sem abrir mão da integridade estética. Sua casa, no bairro da Penha em São Paulo, era um centro de irradiação cultural, onde a música era tratada como um ofício sagrado e uma ferramenta de emancipação. Itamar nos ensinou que o “Nego Dito” é aquele que tem a palavra, que domina a narrativa e que não espera o reconhecimento oficial para saber o seu próprio valor.



