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Jorge Amado além de Gabriela: livros que revelam o lado político e lírico do autor

Era impossível passar por Salvador sem ouvir falar dele. Jorge Amado parecia estar em todo lugar: nas histórias contadas na porta de casa, no samba que ecoava do boteco, nos segredos sussurrados no mercado.

Mas, para além da Gabriela que o imortalizou, existe um Jorge mais combativo, que trocou a boemia pelos panfletos políticos, e outro profundamente lírico, capaz de transformar pescadores, saveiros e festas de largo em poesia. Conhecer esse lado menos óbvio é como abrir um caderno de memórias escondido, nele, a Bahia se revela por inteiro: contraditória, sensual, injusta e mágica.

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Jorge Amado, um dos escritores mais populares do Brasil, combinou engajamento político e lirismo em sua obra

Um dos autores brasileiros mais traduzidos no mundo – 49 idiomas, 55 países –, Jorge Amado retratou, em seus 33 romances, a vida do povo da Bahia em toda sua cor, dor, alegria e injustiças sociais.

Nascido em 10 de agosto de 1912, no sul da Bahia, sua carreira literária costuma ser dividida em antes e depois de Gabriela, Cravo e Canela (1958). Até meados dos anos 1950, foi um militante comunista convicto, chegou a ser eleito deputado constituinte em 1945 pelo PCB, mas teve seu mandato cassado em 1948, quando o partido caiu na ilegalidade.

Esse engajamento rendeu-lhe prisões, exílio e até a queima pública de seus livros em 1937 pelo Estado Novo, que os considerou subversivos. Nessa fase, escreveu romances de forte teor social e ideológico, seus “romances proletários”, alinhados ao realismo socialista soviético.

Gabriela marcou uma virada: publicada após o rompimento de Amado com o PCB em 1956, a obra é vista como aquela que inaugura uma nova fase mais livre e lírica. A partir dos anos 1960, Jorge Amado reinventou-se com histórias bem-humoradas, sensuais e cheias de sincretismo, criando algumas das personagens femininas mais marcantes da literatura brasileira, como Gabriela, Dona Flor, Tieta e Teresa Batista, que carregavam consigo o cotidiano exuberante do povo baiano.

Conheça outras obras de Jorge Amado

Cacau (1933) – Romance proletário

Divulgação

Publicado quando Amado tinha apenas 21 anos, Cacau foi um dos primeiros romances brasileiros de temática proletária, que revelou de imediato o engajamento político do autor.

Nesse livro, inspirado por sua recente filiação ao Partido Comunista, Amado denuncia a ganância e a brutalidade impiedosa dos coronéis do cacau, fazendeiros ricos do sul da Bahia que prosperam à custa da miséria dos trabalhadores rurais. O protagonista, Sergipano, é um jovem migrante que enfrenta jornadas exaustivas e injustiças nas plantações.

Ao longo da trama, passa da revolta individual à tomada de consciência coletiva, terminando como um líder comunista que enxerga na união dos trabalhadores o caminho para a libertação. Essa jornada épica do herói – da pobreza e exploração à luta organizada contra os opressores – tornou-se um modelo dos primeiros romances de Amado, repetido em obras posteriores como Jubiabá (1935) e Capitães da Areia (1937).

Cacau foi recebido como uma obra panfletária por parte da crítica da época, mas cumpriu seu papel de “romance de tese” comunista, que expunha as injustiças sociais do Brasil agrário dos anos 1930. Hoje, além de seu valor histórico, o livro desperta interesse por mostrar as raízes da literatura engajada de Jorge Amado, que viveu na pele as tensões entre arte e política.

Mar Morto (1936) – Lirismo e fatalismo nas águas da Bahia

Divulgação.

Entre seus romances iniciais de denúncia social, Amado surpreendeu ao publicar Mar Morto, uma obra de tom poético que explora o universo mítico dos pescadores e saveiros de Salvador.

Considerado um dos livros mais líricos de Jorge Amado, Mar Morto se distancia do panfleto político e adentra uma atmosfera de balada marítima. O protagonista Guma, mestre de saveiro, vive em comunhão com o mar e seu destino trágico, enquanto histórias de amor e superstição se entrelaçam no cais.

Com linguagem rica em imagens e ritmo cadenciado, o romance exalta a poesia do cotidiano dos pescadores, seus amores, cantos e crenças, ao mesmo tempo em que reflete sobre o fatalismo da vida humilde diante das forças da natureza. Essa prosa musical de Amado foi tão inspiradora que motivou seu amigo Dorival Caymmi a compor a célebre canção “É Doce Morrer no Mar”, cujo refrão carrega versos do livro.

Mar Morto marcou a versatilidade do jovem escritor: mesmo comprometido com causas sociais, Amado mostrou aqui seu lado contemplativo e romântico, capaz de transformar em literatura lírica as lendas e tradições do povo do mar. O resultado é um romance curto, belo e melancólico, em que a Bahia dos saveiros ganha contornos quase míticos e antecipa o estilo celebratório de suas obras futuras.

Capitães da Areia (1937) – Infância abandonada e revolta social

Divulgação

Sua militância inspirou romances como Capitães da Areia. Talvez esse seja o mais famoso romance da fase engajada de Amado, que retrata com crueza e empatia a vida de um grupo de meninos de rua em Salvador e revela a face marginalizada da sociedade baiana.

Publicado em 1937, em pleno endurecimento do regime Vargas, o livro chocou as autoridades pela sua denúncia social ao expor a miséria, a delinquência e os abusos sofridos por menores abandonados.

Os “capitães da areia”, liderados pelo carismático Pedro Bala, sobrevivem de pequenos crimes, dormem em trapiches e carregam cicatrizes de abandono, mas também cultivam laços de amizade e sonhos de liberdade.

Amado conduz a narrativa combinando realismo e compaixão e torna cada garoto um símbolo da infância desamparada pelo Estado. Por trás das aventuras e desventuras dos jovens malandros, há uma clara mensagem política: a sociedade injusta produz sua própria legião de excluídos, e apenas pela transformação coletiva essa situação pode mudar.

Não por acaso, no desfecho, vislumbra-se o engajamento revolucionário de Pedro Bala, uma conclusão alinhada ao ideal comunista do autor. O impacto de Capitães da Areia foi imediato: o romance foi censurado e exemplares chegaram a ser queimados em praça pública em Salvador, sob acusação de “subversão” pelo Estado Novo.

Paradoxalmente, a tentativa de repressão só aumentou a aura em torno da obra, que se tornou um clássico da literatura brasileira.

Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966) – Humor, sensualidade e magia na Bahia

Depois de abandonar a militância partidária, Jorge Amado ingressou em sua fase mais popular e festiva, e Dona Flor e Seus Dois Maridos é o grande expoente desse período lírico e irreverente.

Ambientado no saboroso universo boêmio de Salvador dos anos 1940, o romance conta a história de Florípedes (Dona Flor), professora de culinária, cujo primeiro marido, o malandro bon vivant Vadinho, morre precocemente deixando saudades de sua folia.

Flor casa-se novamente com o farmacêutico Teodoro, homem sério e respeitador, mas começa a ser assombrada pelo espírito do falecido Vadinho, que retorna do além para reivindicar seus direitos conjugais. A partir desse triângulo insólito (uma esposa, um marido vivo e um fantasma libertino), Amado traz um tom leve e malicioso para a narrativa que contrasta com a seriedade de seus livros engajados anteriores.

A obra traz o “lado lírico” de Amado em plenitude: linguagem, humor e erotismo tratado sem pudor nem moralismo. Não por acaso, Jorge Amado é reconhecido como “criador das mulheres mais sensuais da literatura brasileira”, caso de Gabriela, Tieta, Teresa Batista e da própria Flor, e também como o escritor cujas obras melhor celebraram o povo e a alma da Bahia.

Tenda dos Milagres (1969) – Identidade afro-brasileira e crítica do racismo

Divulgação.

No auge de sua fase “brasileira”, livre das amarras ideológicas, mas ainda engajada em temas sociais, Jorge Amado lançou Tenda dos Milagres, romance que une seu lirismo a uma incisiva discussão sobre racismo e valorização da cultura negra.

A história se passa no Pelourinho, em Salvador, e tem como eixo a figura de Pedro Archanjo, homem negro, humilde e autodidata que, nas primeiras décadas do século 20, dedica-se a pesquisar e defender a riqueza da cultura afro-baiana. Archanjo é ogã de candomblé, capoeirista, folclorista e autor de livros sobre a mestiçagem, que se torna, postumamente, um herói local.

Em Tenda dos Milagres, Amado denuncia o preconceito racial e as injustiças sociais, ao mesmo tempo em que valoriza a miscigenação e exalta as tradições afro-brasileiras.

O romance contrapõe dois mundos: de um lado, a “ciência” racista do professor Nilo Argolo, que prega teorias eugenistas contra o povo mestiço; de outro, a sabedoria popular de Pedro Archanjo e seus aliados, que celebram a diversidade do terreiro de candomblé, do samba-de-roda e da capoeira como verdadeiros pilares da identidade nacional.

Publicado em 1969, em plena ditadura militar, Tenda dos Milagres utilizou o passado para lançar luz sobre questões urgentes do presente, afirmando a resistência negra e a liberdade cultural frente à opressão, um tema que mantém a obra atual. Especialistas destacam que a literatura de Jorge Amado permanece relevante justamente por sua abordagem pioneira do universo afro-baiano e da contribuição negra na história do Brasil.

Além do conteúdo político, o livro proporciona o deleite de um painel folclórico, povoado por mães-de-santo, capoeiristas lendários, boêmios e figuras do sincretismo religioso, tudo costurado pelo afeto profundo de Amado por sua terra.

Jorge Amado em seus vieses

Os primeiros romances de Jorge Amado, escritos no calor das lutas sociais, mostraram um escritor comprometido com os oprimidos, disposto a usar sua escrita como arma contra as injustiças, o que lhe valeu rótulos controversos e a pecha de “populista” por parte de críticos elitistas.

Já os livros da maturidade revelaram um cantor da brasilidade, um artista fascinado pelas cores, sabores, amores do povo baiano. Essa dualidade tornou Jorge Amado em um autor de enorme alcance popular sem perder de vista debates sobre pobreza, desigualdade, racismo, religiosidade e identidade nacional.

O autor foi membro da Academia Brasileira de Letras por 40 anos e por muito tempo foi o escritor brasileiro de maior sucesso internacional, só sendo superado em vendas nos anos 1990 por Paulo Coelho..

Seja pelo viés político ou lírico, as histórias de Jorge Amado mostram a leitores o povo da Bahia como os verdadeiros protagonistas de uma saga brasileira repleta de luta, paixão e poesia.

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