Joyce Moreno foi a primeira mulher brasileira a compor uma canção na primeira pessoa do feminino, o que ainda não tinha sido feito por nenhuma das pouquíssimas compositoras brasileiras até então.
A música em questão era “Me Disseram” – apresentada no II Festival Internacional da Canção de 1967 – que já iniciava com a frase: “Já me disseram que meu homem não me ama” e provocou grande polêmica na época.
A compositora então estreante de 19 anos foi criticada como “vulgar e imoral” por alguns jornalistas, como Sérgio Porto, enquanto outros, como Nelson Motta e Fernando Lobo, a defendiam pela “postura feminista” – coisa que, na época, ela não tinha a menor idéia do que fosse: queria apenas se expressar no seu gênero, como vira antes em artistas como Billie Holiday e Edith Piaf. Pioneira, ela não sabia também que abriria caminho para inúmeras outras compositoras que viriam depois.
Hoje, no dia em que a cantora, compositora e instrumentista cariocacompleta 78 anos, vamos saber mais sobre a vida e a obra de Joyce Moreno.
O início de Joyce Moreno
Joyce começou a tocar violão aos 14 anos de idade, observando seu irmão 13 anos mais velho tocar. Ele era amigo de músicos da Bossa Nova como Roberto Menescal e Eumir Deodato, que frequentavam a sua casa. Assim, Joyce Moreno ainda adolescente ia se familiarizando com as últimas novidades da Bossa-Nova, muito influenciada pelo movimento, e abrindo os ouvidos para as novas harmonias que surgiam.
Em 1964, aos 16 anos, Joyce participou pela primeira vez de uma gravação em estúdio, no disco do grupo vocal Sambacana, com músicas de Pacífico Mascarenhas, convidada por Roberto Menescal. A partir daí, sempre a convite do amigo, gravou alguns jingles produzidos por ele. Na mesma época, começou a compor: autodidata, ia fazendo seus progressos no violão. Tudo era ainda visto como brincadeira, e a música como profissão, um sonho distante.
Mais tarde, aos 18 anos, logo depois de ser aprovada no vestibular para Jornalismo na PUC do Rio de Janeiro, Joyce iniciou seus estudos formais de música. Em 1967, começou a trabalhar como estagiária no Caderno B, do Jornal do Brasil, trabalho muito desejado pelos estudantes de jornalismo.
Ela chegou a se formar, mas sua carreira no jornalismo foi interrompida por seu glorioso sucesso na música. 30 anos depois, já consagrada na área musical, Joyce voltou às suas origens no jornalismo ao atuar como cronista semanal do jornal O Dia, depois de publicar – com excelente recepção da imprensa – o livro “Fotografei Você na Minha Rolleyflex”, uma coletânea de crônicas e histórias da música popular brasileira a partir do ponto de vista da compositora.
Joyce lançou seu primeiro disco em 1968, que já teve texto de apresentação assinado por – ninguém mais, ninguém menos que – Vinicius de Moraes na contracapa. No repertório, cinco músicas suas e mais seis inéditas de autores amigos seus, tão ou quase tão iniciantes quanto ela: Paulinho da Viola, Marcos Valle, Francis Hime, Caetano Veloso, Jards Macalé, Toninho Horta eRonaldo Bastos.
Além de Vinicius, Joyce foi muito elogiada por outros grandes nomes da MPB, comoTom Jobim, por sua impressionante performance vocal, seu violão e suas composições
Em 1975, a artista substituiu o violonista Toquinho, ao lado de Vinicius de Moraes, em turnê pela América Latina. Com o sucesso das apresentações, foi convidada para participar dos shows do poeta pela Europa, já com Toquinho de volta ao grupo. A temporada gerou, na Itália, a gravação do seu LP “Passarinho Urbano”, em que a cantora interpretou músicas de compositores brasileiros que naquele momento estavam tendo sua obra censurada pela ditadura militar, como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Edu Lobo, Maurício Tapajós e o próprio Vinicius de Moraes.
Uma carreira de sucessos
Depois disso, a cantora fez uma carreira internacional de muito sucesso, com turnês mundiais a cada ano e gravações de novos discos em diferentes países, sem perder nunca sua identidade brasileira-feminina. Joyce já se apresentou em países da Ásia, Europa, nos Estados Unidos e Canadá e tem em sua bagagem uma extensa discografia, com mais de 40 discos gravados, além de quatro indicações ao Grammy Latino.
A partir de 1979, a cantora passou a ter suas músicas gravadas por outros intérpretes. São cerca de 400 gravações de músicas suas por alguns dos maiores nomes da música popular brasileira.
Em 1980, Joyce Moreno lançou o disco “Feminina”, com destaque para a canção título e para “Clareana”, dois de seus maiores hits. O disco foi sucesso de vendagem e responsável pela primeira grande exposição de Joyce na mídia.
Entre os anos de 1985 e 1987, Joyce foi indicada e fez parte do CNDA – Conselho Nacional de Direito Autoral – ao lado de colegas compositores como Gonzaguinha, Fernando Brant e Maurício Tapajós, todos militantes dos direitos de autor.
Nascida Joyce Silveira Palhano de Jesus, teve seu nome alterado para Joyce Silveira Moreno, em 2001, em função do registro civil de seu casamento com o instrumentista baiano Tutty Moreno, depois de 24 anos de união informal. Em 2008, passou a assinar com o nome artístico Joyce Moreno. Em 2007, ao se completarem 30 anos de seu encontro e união, Joyce e Tutty Moreno decidem fazer pela primeira vez um disco juntos: “Samba-Jazz & Outras Bossas”.
Diversificando as atividades, Joyce Moreno também criou e apresentou, durante os anos de 1999 e 2000, o programa “Cantos do Rio” – pela TVE e pela TV Bandeirantes RJ – dedicado a mostrar o Rio de Janeiro e seus músicos.
Em 2010, ela contou a história do Brasil por meio da música popular brasileira, no programa idealizado e apresentado por ela: “No Compasso da História”. E, em 2012, também idealizou e apresentou a série “Pequenos Notáveis”, sobre a infância dos nossos grandes compositores.
Seu álbum mais recente é de 2025 e chama-se “O Mar é Mulher”.



