Que Juliana Linhares é das melhores intérpretes de sua geração, ninguém duvida. Assistir a cantora, autora, diretora e atriz potiguar no palco é sempre emocionante. Nesta sexta (8/5) Juliana Linhares lança seu segundo álbum, “Até Cansar o Cansaço”, que nasce como reação a um sentimento coletivo e atual de esgotamento. OUÇA AQUI.
A obra musical, criada para transmutar cansaço em ações e movimentos oníricos, propõe a construção de futuros possíveis e ativa a força criativa como forma de reencantamento do mundo, em um sonho coletivo. As onze faixas do disco reúnem composições autorais inéditas e releituras de clássicos de Elino Julião, Belchior e Manduka, ressignificados a partir da estética única de Juliana.
As participações, parcerias e encontros do disco ampliam o diálogo entre gerações e tradições em feats com Ney Matogrosso, Agnes Nunes e Anastácia. O trabalho conta com as já bem sucedidas parcerias de Juliana Linhares com Elísio Freitas, na produção musical, e com Marcus Preto, na concepção artística do álbum, que tem a assinatura de Juliana no conceito artístico geral do projeto.
Inspirada por vivências com o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, durante uma residência artística na Cia Brasileira de Teatro, Juliana despertou para a necessidade de dormir e sonhar mais e coletivamente. A partir desta reflexão, o álbum “Até Cansar o Cansaço” surge como um portal de possibilidades para dar uma canseira no cansaço.
Neste processo, assim como em toda obra de Juliana Linhares, o pensamento cênico está intrinsecamente em primeiro lugar, com a dança ocupando posição de destaque. Uma criação que coloca o corpo exausto em movimento, mantendo-o interessado e interessante, como uma das ações para cansar o cansaço.
O disco começa sua jornada com a faixa-título “Até Cansar o Cansaço”, que transforma o esgotamento em gesto de resistência, numa dança contra o peso do tempo presente, que encontra no corpo novas possibilidades de recomeço.
Parceria com Jef Lyrio, grande amigo do teatro e confidente de Juliana, a faixa simboliza o espírito do álbum. “Jef me acolheu em diversos momentos de exaustão física e emocional e com ouvidos atentos apontou em mim a flecha certeira do que eu gostaria de falar neste disco. Criamos juntos esta canção que fala tanto de nós e de tantos de nós.”, conta Juliana. E quando tudo parece difícil, “Depois do Breu”
aponta para o instante em que o amor ou o sonho irrompem como luz após a escuridão. Uma das primeiras faixas a serem compostas e escolhidas para o álbum, é também o single que anunciou o trabalho, em abril.

E o sol logo reaparece, sim, em “Tanto Buliço”, faixa na qual Juliana celebra o amor como caminho pro amanhã ao lado da voz luminosa da cantora paraibana Agnes Nunes. Um encontro de afeto e abrigo diante do ruído do mundo, imaginado em parceria com Khrystal, presença conterrânea que também assina com a artista o hit “Balanceiro”, que marcou o trabalho de estreia da cantora.
Entre fios, nós e perguntas, a vida surge em “Emaranhada” como um tecido de afetos e riscos, no qual amar é lançar-se, mesmo com todos seus perigos, ao desconhecido. “Vida Virada”, um manifesto de movimento, assinado em parceria com Josyara e Elísio Freitas; transforma o cansaço em impulso de liberdade. Ao lado de Anastácia, grande referência da música nordestina, Juliana evoca a estrada como destino e reinvenção de quem cansou de se cansar para conquistar o descanso.
O caminho segue um pouco mais cinza com “Tempos Temporais”, parceria com Juliano Holanda, que atravessa saudade, cidade e desejo em meio à tempestade, para lembrar que os temporais carregam ventos capazes de abrir novos caminhos. Em seguida, “Mistério do Óbvio”, que ganha participação de Ney Matogrosso, propõe um novo mundo possível em meio ao caos.
Uma metalinguagem na qual a parceria musical é tão onírica quanto o significado da própria faixa. “Ney pra mim é o que quero ser no futuro, ele me ensina a sonhar.”, celebra Juliana. A tradição nordestina brilha em “O Rabo do Jumento”, clássico de Elino Julião e do estado do Rio Grande do Norte que une humor popular e crítica social.
A música que marcou a memória afetiva de Juliana desde a infância, cantada por seu pai, atualiza-se aqui como representação da força da voz coletiva e da tradição oral. Mais à frente, já na reta final do álbum, seguimos os passos de quem veio antes nesta jornada de sonhos, numa sequência de criações de Manduka e Belchior atualizadas por Juliana. Enquanto “Conseguiram, Parabéns”, do compositor e artista plástico – e filho do célebre poeta amazonense Thiago de Mello-, oferece um olhar irônico e contundente sobre as estruturas de poder e a naturalização da violência; “A Palo Seco”, do compositor cearense, encerra o disco reafirmando a urgência da palavra e da voz como instrumentos de transformação, “crua e direta, como palavra dita sem ornamento.”, crava Juliana. Sem profecias ou respostas prontas, ao fim, o disco aponta para o coletivo e o espiritual em “Futuro (Novos Erros)”, uma espécie de oração contemporânea que aposta na tentativa e no erro como caminho para acertar.
A faixa recebe as participações ancestrais e delicadas da avó, da madrinha e da mãe de Juliana, numa oração escrita pela cantora. Uma canção que traduz muitos dos desejos de conversar com as pessoas emanados pelo novo álbum.
Entre o manifesto e a delicadeza, o novo trabalho de Juliana Linhares consolida uma artista que chega a este momento com o corpo e a escuta mais maduros,
consciente do lugar que ocupa como mulher artista nordestina. Uma força cênica que faz da canção um espaço de pensamento, invenção e presença em mundo exausto, mas ainda disposto a dançar enquanto vislumbra o inimaginável que pressupõe a esperança.


