Luca Argel é um cantautor e escritor carioca que, há mais de dez anos, vive na ponte aérea “Brasil – Portugal”. Luca é um dos artistas mais interessantes da sua geração porque entende a música e suas camadas como poucos, porque se interessa mais pelo processo do que pelo resultado e, sobretudo, porque compreende a arte como ferramenta de escuta, diálogo e transformação.
Em Portugal, enquanto cursava o mestrado em Literatura, Luca iniciou sua trajetória profissional nos palcos. Foi nesse período que passou a cantar com os grupos Samba Sem Fronteiras e Orquestra Bamba Social, parcerias que aprofundaram sua relação com o samba — gênero central em sua formação artística e afetiva, e que atravessa grande parte de sua obra.
Paralelamente à música, construiu um percurso consistente na literatura. Publicou livros de poesia no Brasil, em Portugal e na Espanha, um deles semifinalista do Prêmio Oceanos em 2017. Também escreve canções para espetáculos de dança e cinema, além de ter produzido programas de rádio e podcasts dedicados à música brasileira. Agora ele lança o quinto álbum de sua lavra autoral. “O Homem Triste” é um disco ambicioso.
Estamos diante de um Luca Argel mais pop, ou mais apto a pescar ouvidos diversos. Desatentos, quiçá. Sob produção musical de Moreno Veloso, ouve-se aqui o artista brasileiro radicado em Portugal há mais de dez anos num registro de tons luminosos. Um disco para fora. E este movimento se dá num contexto temático intrincado, onde o cantautor busca refletir sobre uma questão espinhosa: a masculinidade. E o que é saboroso, portanto, é justamente poder se embrenhar na complexidade do assunto a partir de uma perspectiva diferente daquela que está posta mais comumente no debate público – seja pela perspectiva musical, seja pela forma de abordar o tema criticamente.
“Começou há quatro anos, com o nascimento do meu afilhado. Olhava para ele aprendendo a andar, a falar, até que um dia ele voltou da escola diferente. Mais agressivo, rejeitando alguns brinquedos, algumas roupas, algumas cores que ele antes gostava. Lembrei do meu tempo na escola. Da urgência de ser aceito por um grupo, do medo de ser excluído, das regras que ninguém sabia de onde vinham, mas que se aplicavam como leis. Fiquei me perguntando: como os meninos aprendem a ser homens? Que preço temos que pagar? Dessa pergunta nasceu uma música, e dessa música nasceu um álbum inteiro. Do desejo que o meu afilhado possa inventar o homem que ele quiser ser, e que esse homem possa simplesmente ser feliz”, reflete Luca. Eu, que sou mãe de um menino, adorei o disco. Indico muito a audição.



