A doença renal crônica, que evolui de forma silenciosa, já é um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil. “No país, mais de 170 mil pessoas estão em diálise — e esse número vem crescendo ano após ano”, afirma a nefrologista Dra. Carlucci Ventura, citando dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). No mundo, a estimativa é de que mais de 10% da população apresente algum grau do problema, algo em torno de 850 milhões de pessoas.
Do que se trata e quem está em risco
A condição se caracteriza pela perda lenta e progressiva da função dos rins e, muitas vezes, só dá sinais em estágios avançados. “O diagnóstico tardio dificulta o tratamento e aumenta o risco de complicações”, explica a especialista.
Principais fatores por trás do avanço da doença, segundo a médica:
- Diabetes
- Hipertensão arterial (pressão alta)
- Obesidade
- Estilo de vida sedentário e má alimentação
- Envelhecimento da população
Quando os sintomas aparecem, costumam incluir:
- Inchaço nas pernas
- Anemia e fadiga
- Alterações urinárias
- Pressão arterial difícil de controlar
Nesse estágio, as opções se restringem a diálise — hemodiálise ou diálise peritoneal — e transplante renal. “O impacto é expressivo para o paciente, que passa a depender de sessões frequentes, e para o sistema de saúde, que arca com custos elevados”, diz Ventura. “A diálise consome bilhões de reais por ano do orçamento público, o que reforça a importância da prevenção.”

Diagnóstico precoce faz diferença
A boa notícia é que detectar cedo muda o curso da doença. “Exames simples de sangue, que medem a creatinina, e de urina são suficientes para identificar precocemente a doença”, orienta a nefrologista. Ela destaca que ações de rastreamento em grupos de risco — como pessoas com diabetes e hipertensão — têm se mostrado eficazes para evitar que o quadro chegue a estágios críticos.
Nos últimos anos, novos medicamentos também ajudaram a frear a progressão da doença. “Drogas da classe dos inibidores de SGLT2, criadas para o diabetes, mostraram benefícios na proteção da função renal e na redução de eventos cardiovasculares”, afirma. Para a médica, a integração do cuidado — controle da pressão, do metabolismo e do peso — é essencial para reduzir a carga da doença.
Prevenção no centro da estratégia
“A prevenção ainda é a melhor estratégia”, resume Ventura. Entre as medidas recomendadas estão:
- Evitar automedicação
- Reduzir o consumo de sal e de ultraprocessados
- Manter alimentação equilibrada e atividade física regular
- Acompanhar pressão e glicemia, especialmente em quem já tem fatores de risco
O crescimento do número de pacientes em diálise acende um alerta. “A estimativa é que, nas próximas duas décadas, a doença renal crônica se torne uma das cinco principais causas de morte no mundo”, diz a nefrologista. Para ela, o Brasil precisa acelerar respostas: “É preciso investir em políticas públicas de prevenção e conscientização para evitar que mais pessoas cheguem ao estágio final da insuficiência renal.”



