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Maria Firmina dos Reis: a escritora que desafiou o Brasil escravocrata com sua literatura pioneira

Imagine uma mulher negra, no século 19, escrevendo um romance abolicionista, assinando com o próprio nome e denunciando os horrores da escravidão em um país que ainda a mantinha como base econômica. Essa mulher existiu: Maria Firmina dos Reis, maranhense, filha de mãe negra alforriada, professora e autora do primeiro romance publicado por uma brasileira.

Durante muito tempo, seu nome foi apagado dos livros de história e literatura. Mas hoje, mais de 200 anos após seu nascimento, sua obra ressurge como um marco da literatura brasileira e da intelectualidade de mulheres negras.

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Quem foi Maria Firmina dos Reis?

Nascida em 1822, no Maranhão, Maria Firmina dos Reis enfrentou uma sociedade racista e patriarcal para se formar professora e se tornar escritora. Sua vida foi marcada por pioneirismos: foi uma das primeiras mulheres negras a conquistar cargo público como educadora, fundou uma escola mista e gratuita, algo radical na época, e ousou publicar obras em que o protagonismo era dado a pessoas negras, escravizadas e mulheres.

Seu romance mais conhecido, “Úrsula” (1859), é considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, antecedendo até mesmo Castro Alves em seu ativismo. A obra subverte o ponto de vista dominante ao dar voz a personagens escravizados, algo inédito até então.

Principais obras de Maria Firmina dos Reis

1. Úrsula (1859)

Primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, publicado sob o pseudônimo “Uma maranhense”, “Úrsula” combina romantismo e denúncia social. A narrativa apresenta, pela primeira vez, personagens negros com voz própria e uma protagonista feminina que reflete sobre o sofrimento causado pela escravidão.

“O cativo sofre, e sofre tanto, que às vezes duvida da existência de Deus.” — Úrsula

Com estilo romântico, mas já anunciando preocupações realistas, a obra foi redescoberta no século 20 e hoje é objeto de estudo em universidades e movimentos antirracistas.

2. Gupeva (1861)

Publicado como folhetim no jornal maranhense Pacotilha, esse conto trata da colonização e da violência contra indígenas. Embora menos conhecido, traz uma crítica importante à imposição cultural e ao extermínio dos povos originários. A obra antecipa discussões sobre etnocídio e apagamento cultural que só ganharam força muitos anos depois.

3. Poemas e hinos

Maria Firmina também escreveu poesias e compôs hinos, como o “Hino à liberdade dos escravos”, que reflete sua posição política e humanista. Embora muitos de seus poemas tenham se perdido, os que restaram mostram uma autora sensível às injustiças sociais e ao sofrimento humano.

4. A Escrava (1887, conto)

Escrito na década de 1880, já nos estertores do regime escravocrata, esse conto reforça o olhar empático e contundente da autora sobre a condição de pessoas negras no Brasil. É uma obra curta, mas de forte impacto simbólico.

Características da obra de Maria Firmina dos Reis

  • Visão abolicionista e antirracista: Antes mesmo de ser um movimento organizado, Maria Firmina já denunciava as violências do sistema escravocrata.
  • Protagonismo feminino: Suas personagens femininas são reflexivas, críticas e donas de si, mesmo dentro dos limites do Romantismo.
  • Estilo híbrido: Sua escrita transita entre o Romantismo e um Realismo incipiente, com passagens que aproximam o leitor da dor física e emocional dos personagens.
  • Inovação narrativa: Ao dar voz a escravizados e indígenas, a autora inverte a lógica da época, em que esses sujeitos eram silenciados ou tratados como figurantes exóticos.
  • Engajamento político: Suas obras sempre dialogam com causas sociais, sobretudo as que tocam gênero, raça e educação.

Do apagamento à valorização: o percurso de Maria Firmina

Redescobrir Maria Firmina dos Reis é um reencontro com as raízes mais profundas da literatura brasileira, que não nasceu apenas branca, masculina e europeizada. Ela nos mostra que sempre houve, mesmo quando invisibilizadas, vozes dissidentes escrevendo e sonhando com um país mais justo.

Sua obra desafia leitores do presente a rever o passado e a reconhecer a força de uma mulher que escreveu contra a corrente. E, finalmente, está sendo lida como merece.

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