Partículas de plástico cada vez mais presentes no ambiente estão sendo encontradas dentro do corpo humano — inclusive em órgãos ligados à reprodução. Estudos recentes associam essa exposição a possíveis prejuízos na fertilidade de homens e mulheres. “O que antes parecia um problema ambiental distante começa a se revelar como uma ameaça direta à fertilidade de homens e mulheres”, afirma o ginecologista e especialista em reprodução assistida Dani Ejzenberg.
“Estudos recentes têm mostrado que essas partículas microscópicas conseguem atravessar barreiras biológicas e se alojar em tecidos sensíveis, incluindo órgãos reprodutivos”, diz o médico.
O que a ciência já encontrou
Pesquisadores da Universidade de Nanjing, na China, detectaram microplásticos em amostras de sêmen humano, associando a presença dessas partículas à menor motilidade e qualidade dos espermatozoides. Na Universidade de Viena, cientistas identificaram microplásticos em placentas humanas, sugerindo que essas partículas podem atravessar a barreira placentária e alcançar o feto.
Essas evidências reforçam a suspeita de que a poluição ambiental interfira no equilíbrio hormonal, na qualidade dos gametas e até no desenvolvimento embrionário. Na prática clínica, a área de reprodução assistida também acende o sinal de alerta para possíveis efeitos na fertilização e na qualidade dos embriões. “A medicina reprodutiva começa, portanto, a considerar a análise do impacto ambiental como variável no cuidado integral da fertilidade”, acrescenta Ejzenberg.
Como essas partículas chegam ao corpo
Microplásticos são liberados por itens do dia a dia — garrafas e embalagens, roupas sintéticas, cosméticos e até pneus. Essas partículas se dispersam no ar, na água e no solo, entrando na cadeia alimentar. Estimativas indicam que uma pessoa pode ingerir até 5 gramas de microplástico por semana, o equivalente a um cartão de crédito, segundo a Universidade de Newcastle, na Austrália.
No organismo, os microplásticos podem desencadear processos de inflamação e estresse oxidativo, além de alterações hormonais. “No organismo, essas partículas podem causar inflamação, estresse oxidativo e disfunções hormonais, fenômenos que afetam diretamente a fertilidade”, explica o especialista. Compostos presentes em plásticos, como bisfenol A (BPA) e ftalatos, são conhecidos por interferir na ação dos hormônios sexuais.
O que dá para fazer agora
Para o médico, reduzir a exposição é um passo possível e necessário enquanto novas pesquisas avançam. “A prevenção depende de ações coletivas e individuais”, diz. Entre as medidas práticas destacadas pelo especialista estão:
- · Diminuir o uso de plásticos descartáveis no dia a dia;
- · Evitar aquecer alimentos em embalagens plásticas;
- · Preferir produtos identificados como livres de BPA.
Ele reforça que políticas públicas de controle ambiental e incentivo à economia circular são fundamentais para frear o ciclo de contaminação. “A presença de microplásticos no corpo humano representa um lembrete contundente de que a saúde reprodutiva não é um tema isolado, mas parte do equilíbrio do planeta”, conclui.



