A miopia, condição que dificulta enxergar bem à distância, deixou de ser apenas um incômodo resolvido com óculos e passou a preocupar especialistas como um desafio de saúde pública. Estimativas internacionais apontam que cerca de 25% da população mundial era míope em 2010 e que, até 2050, esse percentual pode alcançar 50% — o equivalente a aproximadamente 5 bilhões de pessoas.
O oftalmologista Rubens Belfort Neto destaca que o crescimento, observado há mais tempo em países asiáticos como China e Japão, já aparece com força também no Brasil. Para ele, o cenário reforça a necessidade de atenção especial à infância, fase em que o grau costuma aumentar mais rapidamente.
As causas exatas ainda não são totalmente esclarecidas, mas estudos vêm associando o avanço da miopia a mudanças de hábitos das novas gerações. Entre os fatores mais citados estão o aumento do tempo dedicado a atividades de “visão de perto”, como leitura e estudo muito próximos do rosto, seja no celular, no tablet, no computador ou no papel.
O problema, segundo especialistas, não está apenas no uso de dispositivos eletrônicos. O que pesa é a combinação entre longas horas focando objetos próximos e menos tempo ao ar livre. Pesquisas indicam que atividades externas, como brincar e praticar esportes, podem ter efeito protetor e ajudar a reduzir a velocidade de progressão da miopia.
Miopia não é só “precisar de óculos”
Muita gente trata a miopia como algo simples, mas ela envolve mudanças na estrutura do olho. À medida que o grau aumenta, o globo ocular tende a ficar mais alongado, o que pode elevar o risco de problemas oculares no futuro.
O oftamologista explica que, em casos de miopia alta (acima de 7 graus), aumentam as chances de doenças como glaucoma, catarata, descolamento de retina e outras alterações na retina. “Quanto maior o grau, mais o olho se alonga, e isso pode trazer riscos importantes”, alerta o médico.
O impacto pode ser duradouro: ao contrário da catarata, que costuma ser reversível com cirurgia, condições como glaucoma e doenças da retina podem causar perda visual irreversível.

Cirurgia a laser corrige a visão, mas não elimina os riscos
Outro ponto que costuma gerar confusão é a ideia de que cirurgia refrativa “cura” a miopia. O procedimento pode reduzir ou eliminar a necessidade de óculos ao ajustar o foco da luz na retina, mas não altera a estrutura do olho míope.
“A cirurgia ajuda a pessoa a enxergar sem óculos, mas o olho continua sendo um olho míope, mais alongado e com a retina mais esticada”, explica Neto. Na prática, isso significa que os fatores de risco para problemas associados à miopia alta podem permanecer, mesmo após a correção cirúrgica.
Por isso, especialistas defendem que o foco principal deve ser evitar que a miopia avance para graus elevados, especialmente durante a infância.
Tratamentos para desacelerar a progressão em crianças
Nos últimos anos, o controle da miopia ganhou novas estratégias, com opções voltadas a reduzir a velocidade de aumento do grau, principalmente em crianças que desenvolvem a condição cedo — antes dos 7 anos, por exemplo.
Entre as alternativas citadas por especialistas estão:
- · Colírios específicos, usados para ajudar a diminuir o ritmo de progressão do grau;
- · Óculos e lentes de contato especiais, diferentes das lentes convencionais, com tecnologia desenhada para contribuir no controle do aumento da miopia.
Sinais de miopia e o que pais podem observar
A detecção precoce é um dos principais pontos para reduzir impactos. Em casa, pais e responsáveis podem fazer um teste simples: cobrir um olho de cada vez e pedir para a criança descrever uma imagem ou ler uma legenda na TV, avaliando a visão de longe.
Também é importante observar sinais como aproximação excessiva de telas e livros e queda no rendimento escolar. Diante de qualquer suspeita, a orientação é procurar avaliação com um oftalmologista.
Para o médico, a conscientização das famílias é decisiva para enfrentar a mudança no perfil da saúde ocular das novas gerações. “Quanto mais cedo identificar e agir, maiores as chances de controlar a progressão e proteger a visão no futuro”, afirma o especialista.

