Naná Vasconcelos foi, talvez, o músico brasileiro mais respeitado internacionalmente em termos de experimentação sonora. Eleito diversas vezes o melhor percussionista do mundo pela revista americana DownBeat, Naná não tocava apenas instrumentos; ele tocava a própria natureza. Usando o berimbau, o corpo, a voz e até potes de água, ele criava paisagens sonoras que transportavam o ouvinte para o coração da floresta ou para os rituais ancestrais africanos. Naná foi um mestre da “percussão corporal”, provando que o primeiro e mais potente instrumento humano é o próprio coração. Sua trajetória no jazz internacional, colaborando com lendas como Pat Metheny e Don Cherry, colocou o Brasil na vanguarda da música improvisada.
A importância de Naná Vasconcelos reside em sua capacidade de elevar a percussão ao papel de solista. Antes dele, o percussionista era muitas vezes visto apenas como um acompanhante no fundo do palco. Naná mudou isso, transformando o berimbau em um instrumento de concerto capaz de dialogar com orquestras sinfônicas. Ele trazia para sua música a espiritualidade dos maracatus de sua terra natal, Pernambuco, e a fundia com a liberdade do jazz contemporâneo. Naná era um “curador” de sons, alguém que entendia que o silêncio é tão importante quanto a nota, e que a música deve servir para reconectar o ser humano com o cosmos.
O legado de Naná Vasconcelos é uma lição de humildade e genialidade. Ele nos deixou em 2016, mas sua pulsação continua viva em cada batuque que busca algo além do óbvio. Ele ensinou ao Brasil e ao mundo que a música negra é orgânica, viva e infinita. Ao celebrarmos Naná, celebramos a capacidade do artista negro de ser o maestro da própria existência, transformando elementos simples em obras de arte universais. Ele foi o feiticeiro que fez o mundo inteiro dançar ao ritmo da chuva e do trovão, lembrando-nos que a nossa batida é a batida da própria Terra.



