Um estudo inédito da Fundação SOS Mata Atlântica revelou que o Rio Tietê não possui nenhum trecho totalmente livre de contaminação. A “Expedição Tietê 2025” percorreu mais de 1.100 quilômetros do rio, da nascente à foz, e detectou poluentes em todos os pontos analisados.
Para debater esse cenário preocupante, a Novabrasil conversou ao vivo com o diretor-presidente da Companhia de Saneamento do Estado (CETESB), Thomas Toledo. Ainda, o dirigente analisou os dados do relatório e apresentou as ações que o governo paulista adota para despoluir o rio mais importante de São Paulo.
O diagnóstico preocupante da expedição
Os pesquisadores identificaram múltiplos tipos de contaminantes na água, o que expõe os hábitos de consumo e as falhas de saneamento da sociedade paulista. Entre os principais achados, destacam-se:
- Microplásticos: Presentes em todos os 14 pontos coletados.
- Agrotóxicos: 25 variedades diferentes, com forte presença no interior do estado devido ao cultivo de cana-de-açúcar e soja.
- Fármacos e Drogas Ilícitas: 16 substâncias detectadas, incluindo cocaína e remédios como o diclofenaco.
- Metais Pesados: Níveis de cobre e alumínio acima dos limites legais.
Além disso, a cafeína apareceu em todas as amostras coletadas. Como a substância chega ao rio por meio da urina humana, a presença dela em 100% dos pontos funciona como uma prova matemática de que o Tietê recebe esgoto doméstico sem tratamento de ponta a ponta.
Monitoramento diário por satélite
Segundo Toledo, a Cetesb atua como a agência do Governo do Estado de São Paulo responsável pelo controle, fiscalização e monitoramento da qualidade ambiental e da poluição.
Com o objetivo de rastrear os poluidores de forma mais assertiva, a CETESB lançou uma ferramenta tecnológica inovadora. A agência passou a monitorar 1.000 quilômetros do rio – do município de Suzano até a foz, em Itapura – utilizando imagens de satélite diárias.
“O satélite passa todo dia tirando fotos. Nós analisamos as imagens para detectar a presença de carga orgânica e comparar a diferença de um dia para o outro“, explicou Thomas Toledo.
Consequentemente, essa tecnologia permite que a fiscalização vá direto aos pontos críticos de descarte irregular de esgoto e efluentes industriais. A população também pode acompanhar esses dados em tempo real através do aplicativo oficial da CETESB.
Avanços no saneamento e redução da poluição
Apesar do cenário desafiador, as ações iniciadas nos últimos anos começam a gerar os primeiros efeitos positivos. Segundo Toledo, o estado realiza investimentos pesados em saneamento básico desde 2023 para reverter décadas de descaso.
Como resultado imediato, as obras retiraram cerca de 1.500 domicílios que despejavam dejetos diretamente nos cursos d’água. Portanto, a CETESB já identificou uma redução de 20% na carga de poluição orgânica na Região Metropolitana de São Paulo. Por outro lado, o presidente citou o caso de Guarulhos, segunda maior cidade do estado, que antes tratava apenas 2% do seu esgoto e hoje avança rapidamente na universalização do serviço.
O Desafio dos Defensivos Agrícolas no Interior
Apesar do avanço no tratamento de esgoto, o relatório da SOS Mata Atlântica demonstra que a poluição química ganha força no Médio e Baixo Tietê. A equipe localizou inclusive a substância atrazina, um herbicida proibido na União Europeia, em níveis acima do permitido por lei.
Toledo esclareceu que a fiscalização de agrotóxicos possui uma legislação própria e não responde diretamente à CETESB. No entanto, o órgão atua de forma integrada com as autoridades do setor agropecuário. O foco principal está em orientar os produtores rurais e adotar práticas que evitem o escoamento desses químicos para as águas do rio.
Por fim, o diretor-presidente ressaltou que a despoluição total do Tietê exige um esforço contínuo e conjunto entre o estado, os municípios, as indústrias e a própria população.


