Durante décadas, a enxaqueca foi vista como “apenas uma dor de cabeça”. A ciência provou o contrário: trata-se de uma doença neurológica complexa, que envolve vias inflamatórias e elétricas no cérebro e atinge cerca de uma em cada sete pessoas no mundo, segundo estimativas globais.
Agora, um conjunto de terapias de ponta começa a mudar esse cenário. De injeções com anticorpos a procedimentos minimamente invasivos e comprimidos de última geração, as opções nunca foram tão específicas, seguras e eficazes.
Anticorpos e comprimidos que agem no alvo
Entre os avanços mais promissores estão os anticorpos monoclonais anti-CGRP, desenvolvidos para neutralizar uma substância diretamente envolvida na dor da enxaqueca. Aplicados por via subcutânea, geralmente uma vez por mês, eles reduzem a frequência, a intensidade e a duração das crises.
“Essas drogas mudaram completamente o panorama do tratamento preventivo”, afirmou o neurologista Messoud Ashina, da Universidade de Copenhague. “Elas representam a primeira terapia criada especificamente para a enxaqueca, e não apenas adaptada de outros medicamentos.”
Na mesma linha, chegou aos consultórios uma nova geração de comprimidos, os chamados gepants (como rimegepant, ubrogepant e atogepant). Eles miram o mesmo alvo biológico dos anticorpos, mas com ação rápida e reversível — úteis tanto para tratar a crise quanto para prevenir novos episódios, sem risco de dependência ou “efeito rebote”.
Procedimentos que cortam a dor na origem
Outra estratégia que ganhou espaço é a toxina botulínica tipo A, mais conhecida como Botox, especialmente em quem tem enxaqueca crônica (15 ou mais dias de dor por mês). Aplicada em pontos específicos da cabeça e do pescoço, ela reduz a liberação de neurotransmissores da dor e a sensibilidade dos nervos, com benefício progressivo ao longo dos meses.
Para alívio rápido — e também com efeito preventivo — centros especializados utilizam bloqueios de nervos cranianos periféricos, como o occipital e o supraorbital. O procedimento envolve pequenas injeções de anestésico local, com ou sem corticoide, e pode ser indicado inclusive durante a gestação, quando o uso de muitos remédios é limitado.
Cuidado personalizado, além dos remédios
Novos alvos também estão no horizonte, como os anticorpos anti-PACAP, em fase de testes clínicos. Essa molécula está ligada à ativação do sistema trigeminovascular, peça-chave na enxaqueca, e pode beneficiar pacientes que não responderam às terapias atuais.
Para a neurologista Carrie Robertson, da Mayo Clinic, essa é a era da medicina personalizada da dor. “Hoje, conseguimos direcionar o tratamento ao perfil biológico de cada paciente, combinando terapias que atuam de formas diferentes, mas complementares. O objetivo não é apenas reduzir a dor, e sim devolver qualidade de vida e autonomia.”
O cuidado integrado inclui ajustar estilo de vida, identificar gatilhos (como hormonais), adotar técnicas de relaxamento e, em alguns casos, recorrer à neuromodulação — estímulos elétricos que diminuem a sensibilidade à dor em áreas específicas do sistema nervoso.
A mensagem é clara: a enxaqueca continua sendo um desafio, mas as ferramentas para controlá-la avançaram como nunca. Com acompanhamento especializado, é possível sair do ciclo de dor e recuperar a rotina.


