As técnicas de reprodução assistida se tornaram esperança concreta para milhares de pessoas que desejam formar uma família. Mas, à medida que a ciência avança, os dilemas éticos e legais se multiplicam. No Brasil, a ausência de uma legislação unificada sobre o tema gera incertezas e conflitos, tanto para pacientes quanto para os profissionais envolvidos.
“Do ponto de vista médico, os procedimentos estão cada vez mais seguros e eficazes. Mas ainda há um vácuo legal importante, especialmente quando falamos de novas configurações familiares ou da gestação por substituição”, explica o ginecologista Dr. Paulo Gallo, especialista em reprodução humana.
Doação de gametas e barriga solidária: o que pode e o que ainda causa polêmica
No Brasil, a doação de óvulos e espermatozoides é autorizada, desde que feita por parentes de até quarto grau ou de forma anônima e voluntária, sem fins lucrativos. Já a gestação por substituição — conhecida popularmente como barriga solidária — também é permitida, desde que não envolva pagamento e siga regras rigorosas do Conselho Federal de Medicina (CFM).
“É um processo complexo que exige avaliação médica, jurídica e emocional. Mesmo com regras bem definidas pelo CFM, nem sempre conseguimos evitar disputas judiciais”, comenta o especialista.
Essas disputas costumam envolver casos em que há separações durante o processo, dúvidas sobre a filiação legal ou questões envolvendo doadores e receptores, principalmente quando não há vínculo sanguíneo entre as partes.
Multiparentalidade e edição genética: os novos impasses da ciência
A velocidade dos avanços científicos também levanta outras discussões. Casais homoafetivos, por exemplo, ainda enfrentam desafios para registrar legalmente os filhos gerados por técnicas de reprodução assistida. Além disso, temas como edição genética de embriões ou a escolha de características específicas por meio de algoritmos entram em cena com uma carga ainda maior de dilemas éticos.
“A edição genética reprodutiva é proibida no Brasil, mas os debates já começaram. A sociedade precisa acompanhar esse avanço com responsabilidade, para que a tecnologia seja usada com ética e segurança”, alerta Gallo.

O futuro da reprodução precisa de consenso
Apesar da regulamentação técnica do CFM e da Anvisa, especialistas defendem a necessidade urgente de uma legislação que garanta mais segurança jurídica a todos os envolvidos — pais, filhos e profissionais.
“A ciência nos deu ferramentas incríveis para realizar o sonho da parentalidade. Agora, é papel da sociedade e dos legisladores garantir que esse sonho seja possível dentro de um ambiente ético, seguro e acolhedor”, finaliza o médico.



