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O poema de João Cabral de Melo Neto que virou música de Chico Buarque

O ano era 1965, e Roberto Freire, diretor do teatro TUCA, da PUC de São Paulo, pediu ao então muito jovem músico carioca Chico Buarque que musicasse a obra “Morte e Vida Severina”, do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto, escrito entre 1954 e 1955 e publicado em 1955. 

Poema mais conhecido de João Cabral, “Morte e Vida Severina” mudou os rumos da poesia no Brasil, ao dar voz aos retirantes nordestinos e ao rio Capibaripe, em cenas fortes e contundentes.

Em uma clara crítica social, o autor – que faria aniversário no dia de hoje – descreve a viagem de um sertanejo chamado Severino, que sai de sua terra natal em busca de melhores condições de vida.

Cena da peça “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, musicada com Chico Buarque | Imagem: Reprodução

Durante a jornada, Severino se encontra tantas vezes com a Morte que, desiludido e impotente, percebe que a luta é inútil: como ele, tantos outros severinos padecem com a miséria e o abandono. Apenas o nascimento de um bebê, uma criança-severina, renova as esperanças e o espírito cansado daquele que já não tinha motivos para continuar a viver.

A peça era encenada no palco com trinta estudantes e centenas de outros na retaguarda. Desde então, tornou-se um clássico do teatro brasileiro, tendo sido reencenada diversas vezes e virado até filme em 1977, parcialmente adaptada por Zelito Viana, com José Dumont no papel de Severino, Sebastião Vasconcelos como Mestre Carpina, e Tânia Alves como Cigana.

Em 1966, a peça encenada no TUCA foi lançada em disco pela gravadora Philips. Entre as canções, uma se destaca: “Funeral de um Lavrador”, ​​que enfoca um dos temas recorrentes da época: a luta pela reforma agrária no Brasil.

Funeral de um Lavrador

“Esta cova em que estás, com palmos medida

É a conta menor que tiraste em vida

É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo nem fundo

É a parte que te cabe deste latifúndio

É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida

É a terra que querias ver dividida

É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto

Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

Estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco

Porém mais que no mundo te sentirás largo

Porém mais que no mundo te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca

Mas à terra dada, não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio

É a terra que querias ver dividida

Estarás mais ancho que estavas no mundo

Mas à terra dada, não se abre a boca”

Segundo o jornalista, historiador e escritor paraibano Rui Leitão, no livro “Canções que Falam por Nós”: “O poema de João Cabral tem um sentido de protesto, marcado no funeral de um lavrador. É a oportunidade em que o autor declara, com tristeza, a sina do homem pobre da zona árida do sertão nordestino, que só consegue o direito a um pedaço de terra quando morre. A cova é a extensão territorial que enfim passa a lhe pertencer, já que não a conseguiu enquanto vivo.”

Rui analisa que “Os trabalhadores rurais, explorados pelos latifundiários, pouco usufruíam do produto do seu trabalho. A distribuição de terras no Brasil sempre foi concentrada na posse de uma minoria de proprietários. Daí a colocação de que o pedaço de chão que cabe ao agricultor, ora sepultado, é exatamente o tamanho do seu corpo. Afinal, é a parte que lhe é reservada como patrimônio, embora na condição de morto.”.

O poema de João Cabral de Melo Neto afirma que ali, naquele momento, se realiza o desejo que motivou tanta luta: ver a terra dividida de forma justa e igualitária entre os homens. A cova tem a dimensão exata do que possa ser apresentado como direito de posse ao lavrador, milimetricamente medida para caber apenas o seu corpo magro, franzino, sofrido das privações que a vida lhe impôs. 

“No entanto, naquela que passa a ser sua propriedade, ele finalmente descansa em paz e não se submeterá mais às humilhações e dificuldades de sua condição humana.”, conclui o escritor.

E é isso: no túmulo, finalmente, todos os humanos se tornam iguais.

Chico Buarque gravou a canção em um compacto em 1967. Na gravação original, de 1966, a música conta com o coro de Elba Ramalhoe Tânia Alves e os violões de Geraldo Azevedo, além de falas de José Dumont e Stênio Garcia.

Depois da peça, Nara Leãogravou a canção com sucesso em seu álbum “Manhã de Liberdade”, também de 1966.

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