Ver o bebê com a pele e o “branco dos olhos” amarelados nos primeiros dias após o parto assusta muitas famílias. Esse quadro, conhecido como icterícia, é frequente e, na maioria das vezes, faz parte do processo de adaptação do recém-nascido. Ainda assim, em menos casos, pode ser o primeiro sinal de uma doença séria do fígado.
A gastropediatra Aline Falleiros de Freitas explica que a icterícia acontece quando há aumento de bilirrubina no sangue, uma substância produzida naturalmente durante a renovação das células. “O organismo do bebê ainda está amadurecendo a capacidade de processar essa substância, e isso pode deixar a pele e os olhos amarelados”, afirma.
O amarelão aparece em grande parte dos recém-nascidos, inclusive em bebês prematuros, especialmente na primeira semana de vida. Em geral, quando é um fenômeno esperado, a icterícia surge após as primeiras 24 horas, costuma atingir seu pico entre o quarto e o quinto dia e melhora ao redor do sétimo dia.
Apesar de ser comum, a avaliação do pediatra é importante para decidir se há necessidade de exames e, em alguns casos, de fototerapia — tratamento com uma luz específica para reduzir os níveis de bilirrubina. Situações como icterícia nas primeiras 24 horas de vida ou incompatibilidade sanguínea entre mãe e bebê podem exigir investigação ainda na maternidade.
Além da adaptação normal, há causas consideradas benignas, como a icterícia relacionada ao leite materno. Outras situações também podem elevar a bilirrubina, como a reabsorção de grandes hematomas (por exemplo, um inchaço com sangramento sob a pele na região da cabeça), a prematuridade e o diabetes materno. Alterações da tireoide e algumas condições genéticas também podem estar por trás do amarelão, o que reforça a importância do acompanhamento médico na primeira semana após o nascimento.
Sinais que exigem atenção imediata
O ponto mais importante para diferenciar a icterícia comum de um possível problema no fígado nem sempre é “o quanto” o bebê está amarelo. O principal alerta pode estar na fralda.
“O sinal mais importante é a cor das fezes”, alerta Freitas. Fezes muito claras ou esbranquiçadas, descritas como cor de massa de vidraceiro, podem indicar falta de bile no intestino — algo que precisa ser investigado com urgência.
Também acendem o sinal de alerta:
- · Fezes muito claras ou brancas;
- · Urina muito escura;
- · Icterícia que persiste por mais de duas semanas, já que deixa de ser considerada fisiológica.
- Segundo a especialista, é possível que um bebê com doença hepática não seja o que aparenta estar mais amarelo. “Muitas vezes, o principal sinal está na cor das fezes e da urina”, destaca.

Cartela de cores das fezes ajuda famílias a identificar risco
Desde 2017, a Sociedade Brasileira de Pediatria promove a campanha “Alerta Amarelo”, que orienta pais e profissionais a observar a cor das fezes do bebê. A ideia é facilitar a identificação de fezes anormalmente claras, que podem estar associadas a doenças graves do fígado.
Entre os quadros que podem estar por trás da icterícia relacionada ao fígado (icterícia colestática), a frequência é considerada bem menor do que a icterícia fisiológica. Mesmo assim, por ser potencialmente grave, a orientação é não minimizar sinais como fezes claras e urina escura.
Algumas doenças, como a atresia de vias biliares, têm melhores resultados quando diagnosticadas e tratadas cedo. A gastropediatra ressalta que o tempo faz diferença: “Reconhecer os sinais precocemente pode mudar o futuro da criança”. Em casos suspeitos, o objetivo é confirmar o diagnóstico o quanto antes, idealmente ainda nos primeiros meses de vida, porque a chance de preservar o próprio fígado pode ser maior com tratamento no tempo adequado. Quando o diagnóstico é tardio, aumenta o risco de evolução para necessidade de transplante.
No dia a dia, cabe ao pediatra identificar precocemente quando a icterícia foge do esperado e, se houver suspeita de alteração no fígado, encaminhar para avaliação especializada em gastroenterologia pediátrica.
Para as famílias, a recomendação é simples e prática: além de acompanhar a cor da pele e dos olhos, observar fraldas e procurar assistência médica sem demora se surgirem fezes muito claras, urina escura ou amarelão que não melhora após duas semanas.


