Um dos mais importantes nomes da história da música popular brasileira de todos os tempos, o cantor, compositor e pianista carioca Johnny Alf teve uma importância imensa para a construção da MPB, sendo considerado pelo jornalista, escritor e biógrafo Ruy Castro como“o verdadeiro pai da Bossa Nova“, tendo influenciado nomes como João Gilberto, Tom Jobim e Luiz Bonfá, como um verdadeiro precursor do movimento.
Nascido Alfredo José da Silva , em 19 de maio de 1929, começou seus estudos de piano aos nove anos de idade, com uma amiga da família para a qual sua mãe trabalhava como empregada doméstica. O pai, cabo do exército, morreu quando Alf tinha apenas três anos.
Após o início na música erudita,começou a se interessar pela música popular, principalmente trilhas sonoras do cinema norte-americano e por compositores como George Gershwin e Cole Porter.
Mas, quando começou a enveredar para a música popular e a tocar em bares e boates, o artista deixou de receber o apoio dos empregadores da sua mãe.
Aos 14 anos, ele formou um conjunto musical com seus amigos do bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Depois, entrou para o Instituto Brasil-Estados Unidos (IBEU), no centro da cidade.
Foi uma amiga norte-americana que sugeriu o nome de Johnny Alf: “Johnny” por ser um nome popular nos Estados Unidos, e “Alf” que era seu apelido na escola (abreviação de Alfredo).
Em 1949, Johnny Alf entrou para o “Sinatra-Farney Fan Club”, voltado para a música do estadunidense Frank Sinatra e do brasileiro Dick Farney. Em 1952, o próprio Dick Farney, ao lado da cantora Nora Ney, contratou Johnny como pianista da nova Cantina do César, de propriedade do radialista César de Alencar, iniciando assim a sua carreira profissional.
Foi ali que a música de Alf começou a florescer e seu som desenvolveu uma modernidade impressionante. Ele costumava se apresentar por horas e horas, e os ouvintes imploravam para que não parasse de tocar.
Em 1953, suas primeiras composições entraram para o álbum de estreia de uma atriz e Rainha do Rádio, que estava se lançando como cantora, Mary Gonçalves. Foram quatro canções: “Podem Falar”, “Estamos Só”, “O Que é Amar” e “Escuta”. No mesmo ano, Johnny Alf gravou o seu primeiro disco em 78 rpm, com a canção “Falsete”, de sua autoria, e “De Cigarro em Cigarro”, de Luís Bonfá.
Johnny Alf, o pouco reconhecido precursor da Bossa Nova

Durante os anos 50, Alf se apresentava em diversas boates do Rio de Janeiro – como o famoso Beco das Garrafas e o Little Club – ousando misturar em seu processo criativo referências da música clássica e popular, estrangeira e nacional.
A fonte de sua inspiração se encontra na música de Chopin, Debussy, Nat King Cole, Stan Kenton e nos notáveis brasileiros Custódio Mesquita e Francisco Alves. Sua música atraiu os ouvidos ditos mais intelectualizados para os piano bars do bairro de Copacabana.
Antônio Carlos Jobim e João Gilberto – dois dos nomes mais famosos da Bossa Nova, o segundo sendo chamado de Pai do movimento – estavam entre os fiéis frequentadores desses clubes e boates e ficaram surpresos com músicas como “Rapaz de Bem”, uma das primeiras composições profissionais de Alf, que – com a melodia linear, o jeito suave de cantar, uma série de escalas pouco convencionais e uma dissociação rítmica de bateria e baixo – foi, com certeza, a canção precursora da Bossa Nova, inspirando aqueles dois jovens músicos que seriam os futuros representantes do movimento.
Embora Johnny Alf nunca tenha alcançado o estrelato merecido, as lendas da Bossa Nova sempre o viram como uma referência musical: Tom Jobim não apenas o chamava de “Genialf” (uma combinação de “gênio” e “Alf”), mas se sentiu tão inspirado por “Rapaz de Bem”, que compôs “Desafinado”, uma das músicas mais famosas do movimento que marcou a década de 60.
Quando João Gilberto percebeu que as síncopes incomuns de Alf o lembravam da batida do tamborim, ele disse que finalmente encontrara o que estava procurando.
Johnny Alf participou do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, com a canção “Eu e a Brisa”, tendo como intérprete a cantora Márcia. A canção foi desclassificada, porém tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Johnny Alf, ao lado de “Rapaz de Bem”, “Céu e Mar” e “Ilusão à Toa” e outras canções que vamos conhecer hoje.
Em seis décadas de carreira, Johnny Alf compôs mais de oitenta canções, foi gravado por nomes como Caetano Veloso e Chico Buarque e lançou mais de 10 álbuns, sendo o primeiro em 1961 e o último em 2006.
Foi também professor no Conservatório de Música Meireles, em São Paulo.

Em 2008, na mostra sobre os 50 anos da Bossa Nova, Johnny Alf teve um encontro virtual com nomes como Tom Jobim, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Stan Getz, todos já falecidos. O artista tocava piano com as projeções dos colegas, para um filme que foi exibido ao longo do evento.
Segundo o curador da mostra, Marcello Dantas,Alf – que era preto, de família pobre e homossexual (embora na época ele não falasse abertamente sobre isso, também não escondia de ninguém) – foi “o caso clássico do artista que não teve o reconhecimento à altura de seu talento.”. Principalmente na Bossa Nova, um ambiente branco e bastante elitista. Para Dantas,“Alf foi um gênio e teve participação na história da nossa música”.
Alaíde Costa, a cantora favorita de Johnny Alf, disse que o racismo na Bossa Nova sempre foi velado, a ponto de pretos como ela e Alf nem perceberem que estavam enfrentando discriminação. “Quando o movimento começou, eu já era profissional. Era convidada para os encontros porque podia ajudar o movimento de alguma maneira”, disse ela em uma entrevista. “Mas, quando a Bossa Nova explodiu, senti que não era mais necessária”.
Alaíde só passou a ter o merecido reconhecimento hoje, com mais de 90 anos. Já Johnny nos deixou cedo demais para que a reparação histórica fosse feita. Ele partiu em março de 2010, aos 80 anos, em decorrência de um câncer de próstata.
Mas sua música e seu legado para a MPB seguem vivos e eternos.


