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Os 15 maiores sucessos de Wilson Simonal

O cantor e compositor carioca Wilson Simonal era um artista completo – um verdadeiro showman – que regia uma plateia de 30 mil pessoas como se fossem parte de seu coro e transformava em hit tudo o que gravava. Foi eleito a quarta maior voz brasileira de todos os tempos, segundo lista da Revista Rolling Stone Brasil de 2012.

Sua exímia qualidade vocal e rítmica, seu carisma e domínio do palco e do público lhe garantiram um estrondoso sucesso durante as décadas de 60 e 70 e o colocaram entre os maiores nomes da nossa música popular brasileira de todos os tempos.

Acontece que – como disse a coluna da Revista Raça, aqui mesmo em nosso site: Simonal era um homem negro que ousou ocupar o centro da cena cultural brasileira. Ele falava alto, ria, comandava multidões e não aceitava o lugar subalterno que o racismo estrutural reservava para corpos negros. 

Esse protagonismo, em um país profundamente desigual, teve um preço alto. Sua trajetória foi marcada por perseguição política, julgamento público e tentativa de apagamento cultural. 

(…) Durante anos, sua obra foi silenciada, sua imagem distorcida e seu legado minimizado.”. 

Hoje seria aniversário do artista, que completaria 88 anos se não tivesse nos deixado em 2000, aos 62 anos, muito por conta de ter adoecido cada vez mais depois de tudo o que lhe aconteceu. 

Para celebrar a obra e o legado de Wilson Simonal, e sempre tentar fazer um pouco de justiça ao seu apagamento e condenação, te contamos mais sobre sua história e trajetória e ainda destacamos os 15 maiores sucessos de Simonal.

Wilson Simonal | Foto: Domínio público / Acervo Arquivo Nacional

Tudo sobre Wilson Simonal

Nascido no Rio de Janeiro, em 1938, Wilson Simonal de Castro era filho de uma cozinheira e empregada doméstica e de um radiotécnico, ambos mineiros, que haviam se mudado para a cidade carioca.

Chegou a estudar canto na escola e violão com um amigo, mas – na adolescência – viu seus planos de formar um conjunto musical interrompidos, quando foi convocado a servir o 8º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, quartel famoso pelo seu ativo time de futebol e por sua banda. 

Mas, como nada é por acaso, foi lá que Simonal aprendeu a comandar plateias e dominar o público como ninguém, já que era chefe da torcida do time e participava dos bailes como cantor da banda. 

Quando saiu do exército, foi logo formar o seu primeiro conjunto musical: Dry Boys, chamando a atenção de Carlos Imperial, importante produtor artístico da época, que apresentava o programa “Clube do Rock”, na TV Tupi, onde a banda passou a se apresentar.

Depois disso, Simonal seguiu em carreira solo, com o apoio de Imperial – que contratou-o como seu secretário – e passou a se apresentar como crooner na boate Drink. A exposição como crooner lhe rendeu um contrato com sua primeira gravadora e a gravação de seu primeiro compacto.

Nos anos de 1962 e 1963, sua gravadora lançou mais três compactos de Simonal para testar sua receptividade em diferentes estilos musicais, antes de lançar seu disco de estreia, em novembro de 1963: “Tem ‘Algo Mais’”. Neste disco está o seu primeiro sucesso nas rádios: “Balanço Zona Sul” (de Tito Madi).

Aqui, começamos a nossa lista, com os 15 maiores sucessos de Wilson Simonal!

1 –  “Balanço Zona Sul” (de Tito Madi)

O álbum e a música lhe deram grande exposição e Simonal foi convidado por Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli para se apresentar, entre os anos de 1964 e 1965, no famoso Beco das Garrafas, travessa do Rio de Janeiro que abrigava as casas noturnas onde se apresentavam os maiores nomes da música brasileira da época.

Em 1965, o artista lançou o seu segundo álbum, “A Nova Dimensão do Samba”, considerado por muitos como um dos melhores discos da sua carreira. Estão nesse disco, duas das canções que são grandes sucessos em sua voz:

2- Lobo Bobo (de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli)

3 – Ela Vai, Ela Vem (de Bôscoli e Roberto Menescal)

O grande sucesso no Beco das Garrafas e das primeiras músicas gravadas trouxeram o interesse da TV Tupi em produzir um programa apresentado por Simonal. Assim, em janeiro de 1965, ele assinou contrato para apresentar o programa “Spotlight” e mudou-se para São Paulo. 

Em 1966, três anos após lançar o seu primeiro disco,  Simonal passou a ser atração fixa no programa de Elis Regina e Jair Rodrigues, “O Fino da Bossa”, na TV Record e também a fazer participações no programa da Jovem Guarda

Neste mesmo ano, o artista interpretou a trilha do primeiro filme de Os Trapalhões e logo tornou-se um sucesso nacional. Ainda em 1966, Simonal estreou o seu programa, “Show em Si… Monal” (que, depois de um tempo – passou a se chamar “Vamos Simbora”), na TV Record. Entre os roteiristas estavam Miele, Bôscoli, Carlos Imperial e Jô Soares.

Intérprete visionário e antenado com o que de mais novo e de melhor qualidade vinha sendo feito em termos de música no Brasil, Wilson Simonal foi o segundo intérprete na história a gravar Caetano Veloso, ficando atrás somente da irmã dele, Maria Bethânia, ainda não tão conhecida na época. Simonal gravou a mesma canção que Bethânia e no mesmo ano, “De Manhã”, em um compacto de 1965. 

Ele também foi o segundo artista a gravar Chico Buarque, com a canção “Sonho de Um Carnaval”, no mesmo ano, depois de ser gravada por Geraldo Vandré. Além disso, foi ainda o primeiro a gravar Toquinho, com a canção “Belinha”, que tornou-se outro dos seus maiores sucessos.

4 – Belinha (Toquinho)

A partir de 1966, o pianista César Camargo Mariano (que foi marido de Elis Regina e é pai de Maria Rita e Pedro Mariano) tornou-se o principal arranjador das canções de Simonal. Os dois, junto com Carlos Imperial e Nonato Buzar, formaram um movimento, comandado por Simonal, batizado de Pilantragem

A ideia era misturar bossa nova, samba, a nascente música soul americana, o jazz, a música de protesto e o rock que se já fazia por aqui na época com a Jovem Guarda, sem perder a qualidade, mas fazendo um som que era diferente de tudo isso, que eles definiam como “mais comunicativo” – isto é – que se comunicasse melhor com as massas, que fosse mais popular. 

A elaboração de arranjos e repertórios buscava a união do bom gosto com a comunicação imediata. Foi nessa linha que Simonal – que ficou conhecido como “Rei da Pilantragem” ou “Rei do Swing” e gravou algumas das canções de maior sucesso de sua carreira:

5 – Carango (de Imperial e Buzar)

6 – Mamãe Passou Açúcar em Mim (de Carlos Imperial)

7 – Nem Vem Que Não Têm (de Carlos Imperial)

8 – Meu Limão, Meu Limoeiro (Tradicional/Adpt. José Carlos Burle)

9 – Vesti Azul (de Nonato Buzar)

Em 1967, Simonal compôs – com Ronaldo Bôscoli – a música que viria a ser um hino da luta contra o preconceito racial: “Tributo a Martin Luther King”, grande ícone e referência na luta pelos direitos civis americanos. César Camargo Mariano fez os arranjos e a canção foi gravada em compacto no mesmo ano, mas só pôde ser lançada quatro meses depois, por conta da censura. 

10 –  Tributo a Martin Luther King (Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli) 

Na entrega do Troféu Roquete Pinto naquele ano, Simonal fez um discurso histórico sobre esta composição: “Essa música, eu peço permissão a vocês, porque eu dediquei ao meu filho, esperando que no futuro ele não encontre nunca aqueles problemas que eu encontrei, e tenho às vezes encontrado, apesar de me chamar Wilson Simonal de Castro.”

Simonal é pai dos cantores, compositores, multi-instrumentistas e produtores Wilson Simoninha e Max de Castro, que carregam com maestria o seu legado na música.

Já no histórico III Festival da Música Popular Brasileira, em 1967, Simonal foi indicado como intérprete por tantos compositores que a organização abriu uma exceção para que ele apresentasse uma música em cada uma das três eliminatórias. 

Ainda em 1967, Simonal lançou o disco “Alegria, Alegria”, o primeiro de uma série de quatro discos que o artista lançou com esse nome, vindo de um bordão que ele utilizava nos shows e que Caetano Veloso usou para nomear sua música de imenso sucesso, que apresentou no festival do mesmo ano. Nesse disco, que conta com barulho de interação e palmas da plateia e com cantigas de roda, estão grandes sucessos da Pilantragem.

No quarto disco da série, está também o grande sucesso de Jorge Ben Jor e Toquinho, “Que Maravilha”.

11 – Que Maravilha (Jorge Ben Jor e Toquinho)

Em 1969 Simonal gravou o que veio a ser o maior sucesso comercial de sua carreira: a música “País Tropical”, de Jorge Ben Jor. Jorge queria dar a composição para Gal Costa, mas Simonal gostou tanto da música que insistiu em gravá-la e ainda inseriu algumas particularidades, como o último refrão em que cantava apenas a primeira sílaba de cada palavra, o célebre “patropi”, termo utilizado até hoje para fazer referência ao Brasil.

12 – País Tropical (Jorge Ben Jor)

“Sá Marina” (de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar), de 1968, é a segunda música de maior sucesso de Simonal e tornou-se o maior cartão de visitas de Simonal no exterior, tendo sido gravada por nomes como Sérgio Mendes e Stevie Wonder e rendendo ao artista turnês internacionais de sucesso. 

13 – Sá Marina (Antônio Adolfo e Tibério Gaspar)

Também em 1969, a empresa Shell patrocinou uma turnê de Sérgio Mendes no Brasil. O pianista brasileiro, que fazia muito sucesso e residia no exterior desde 1964, veio se apresentar no país e encerrou a turnê em um show a preços populares no Maracanãzinho, contando com a presença de outros artistas como Jorge Ben Jor, Gal Costa, Milton Nascimento e Wilson Simonal, que foi o último a se apresentar antes da entrada triunfal de Sérgio Mendes.

Acontece que Simonal fez tanto sucesso com as clássicas canções que apresentou em seu show e com a forma com que dominava a plateia de 30 mil pessoas como se fossem parte de seu coro – dividindo as vozes em “Meu Limão, Meu Limoeiro”, da mesma forma que fazia em seu programa – que acabou sendo mais ovacionado que o próprio Sérgio Mendes, estrela da noite. 

A Shell ficou encantada com Simonal e fechou com ele um dos maiores e mais altos contratos da história da publicidade até aquele momento. Simonal tornou-se garoto propaganda da marca e seu sucesso, popularidade, influência só cresciam a cada dia, atingindo o auge naquele momento.

Em 1970, o artista excursionou pela Europa como embaixador do Festival Internacional da Canção daquele ano e aproveitou para promover a sua própria carreira fora do Brasil.

No mesmo ano, ele acompanhou a Seleção Brasileira de Futebol durante a Copa do Mundo do México e se apresentou no país, lançando até um álbum por lá, chamado “México 70” e que contava com o sucesso “Aqui é o País do Futebol”, de Milton Nascimento e Fernando Brant.

14 – Aqui é o País do Futebol (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Ainda em 1970, estreou o filme “É Simonal”, indo na onda dos filmes com músicos que existiam à época, como os de Roberto Carlos. No mesmo ano, dentro do contrato com a Shell, cantou ao lado de Sarah Vaughan.

No fim de 1970, o artista lançou o compacto “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, de Vinícius de Moraes e Toquinho, última música de Simonal arranjada por César Camargo Mariano e a última canção na qual o compositor foi acompanhado pela banda Som Três.

15 – A Tonga da Mironga do Kabuletê (Vinicius de Moraes e Toquinho)

A partir daí, estando ainda no auge, Wilson Simonal viu sua carreira entrar em declínio em 1971, por conta da notícia de que ele teria se envolvido com o DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – órgão de informação e repressão do governo brasileiro utilizado na época da ditadura militar, ao acionar seus contatos na polícia para assustar o seu contador na época, que trabalhava para a Simonal Produções Artísticas e que Simonal acreditou que estava o roubando. 

O homem foi torturado por agentes do DOPS para que confessasse o desfalque e denunciou o envolvimento de Simonal no seu sequestro e nas agressões sofridas.

A partir dessa delação desastrada, Simonal passou a ter seu nome diretamente ligado aos serviços de informações e delações do regime militar e, por isso, foi boicotado pela mídia, por gravadoras e também por outros artistas, que o acusavam de ser delator de colegas da classe artística, muito perseguida pela ditadura na época.

O artista chegou a lançar mais alguns discos depois de 1971, mas nada muito expressivo e nunca mais recuperou o prestígio que o havia convertido no cantor mais popular do Brasil poucos anos antes. 

O cantor e compositor Wilson Simonal já nos seus últimos anos | Imagem: Reprodução

Esses boatos nunca foram provados, mas isso não impediu que Simonal vivesse os últimos anos de sua vida no ostracismo, falecendo no ano 2000, aos 62 anos, por complicações provenientes do alcoolismo que passou a enfrentar depois que caiu no esquecimento e teve sua carreira destruída, logo após ter sido um dos nomes de maior sucesso da música popular brasileira.

Simonal não conseguiu provar em vida que não tinha envolvimento com os órgãos repressores, que prendiam e torturavam os seus colegas artistas, mas que – sim – tinha cometido um erro e pagado pelos crimes a que foi condenado ao ter participação no sequestro e tortura sofridos por seu contador.

Ele chegou a obter, no início dos anos 90, documentos da Presidência da República que, após vasculhar os arquivos dos serviços de informação, informavam que nada fora encontrado sobre a associação do cantor com os denominados serviços. Assim, o cantor voltou a aparecer na mídia como uma vítima do clima da ditadura militar que provocava patrulhamentos, mas isso não foi o bastante para recuperar sua carreira. 

Por muito tempo, seus filhos, fãs e colegas da classe artística lutaram para revitalizar a memória de Simonal e o legado inquestionável que ele deixou para a nossa música popular brasileira, sendo um de seus maiores e principais representantes.

Apesar de tudo o que Simonal sofreu, seu legado continua vivíssimo, tanto em suas canções maravilhosas, como em seus dois talentosos filhos – Simoninha e Max de Castro –  que tanto lutaram para provar a inocência do pai e, em 2003, conseguiram que Simonal fosse moralmente reabilitado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em julgamento simbólico.

A vida do cantor virou um filme, “Simonal”, que nos mostra o quanto o racismo teve influência no julgamento imperdoável que o artista – interpretado por Fabrício Boliveira – sofreu por parte da mídia, da classe artística e da opinião pública no auge de sua carreira.

Wilson Simonal | Foto: Divulgação/Prefeitura de Araras
Wilson Simonal | Foto: Divulgação

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